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Chocolate
o lobo em pele de cordeiro
Cid de Oliveira
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Astrólogo
Lembram da exemplar história de Chapeuzinho Vermelho?
Nela, o lobo mau era um andarilho que marchava pelos caminhos da floresta à cata da carnezinha
tenra das alminhas infantis e indefesas, para comer. Como ele raramente se aventurava no caminho do
rio, a mãe de Chapeuzinho recomendou que ela fosse para casa da vovozinha exatamente por essa estrada
e evitasse passar pelo bosque. O lobo mau era, sem dúvida, simpático, envolvente e dono de ótimo
papo, pois encontrou Chapeuzinho, levou-a na maior conversa e convenceu-a a seguir pelo caminho da
floresta. O argumento irresistível, dito em voz melosa, foi um chamado para gozar dos sentidos,
integrar-se com a natureza, deixar de lado as obrigações e viver a alegria instintiva da mata.
Segundo os seríssimos irmãos Grimm, assim falou o lobo mau:
"Veja que lindas flores
crescem por aqui... por que não olha à sua volta? Parece que você
não ouve o canto harmonioso dos pássaros! Anda depressa como se
fosse para a escola! Observe como é alegre tudo que a rodeia no
bosque!".
Além de ser também um compulsivo gourmet, dono de um paladar no mínimo esquisito, - pois adorava
combinar no jantar a carne tenra de jovens menininhas com uma Vovozinha de entrada -, o lobo mau era
um perfeito mestre do disfarce. Seu domínio dessa arte era tanto, que conseguia dissimular-se na
aparência de suas próprias vítimas. Desse modo, quando ele bateu na porta da casa da vovozinha, e
a velhinha perguntou: - Quem é? Ele respondeu imitando a voz de Chapeuzinho: - É
Chapeuzinho Vermelho que lhe traz bolo e vinho. O que aconteceu depois vocês estão cansados de saber: ele enganou a
vovozinha e jantou-a sem menos nem mais.
Pois bem, depois de lembrar tudo isso, afirmo para vocês que quem bateu na porta da vovozinha Armande
Voizin (Judi Dench), no filme Chocolate, foi o lobo mau, disfarçado de Chapeuzinho Vermelho. Vejam se
não tenho razões sobradas para pensar assim.
Vianne Rocher, (vivida pela excelente Juliette Binoche), chega naquela cidadezinha à beira do caminho
do rio, literalmente fantasiada de Chapeuzinho Vermelho, "modelito" que não fica bem na sua filha
pequena, quanto mais nela. Observem que ela sabe - como o lobo mau - não só se disfarçar de
Chapeuzinho Vermelho, mas também é, como ele, uma andarilha e uma gourmet. E, mais importante, suas
crenças são as mesmíssimas do insidioso animal: o apelo aos instintos, o desprezo pela autodisciplina,
o gozo dos sentidos, a integração com a natureza. E mais gritante parecença se demonstra quando se vê que
a Senhora Vianne, igualzinho ao lobo mau do conto, também bate na casa da vovozinha, entra sem que se lhe
abra a porta e faz dela sua primeira vítima; afinal de contas ela já sabia que a velha diabética não
podia continuar a comer doces quando preparou os manjares para o aniversário. Mesmo assim, não a
impediu de matar-se (como queria a filha) porque fazê-lo seria uma atitude repressiva que
desrespeitaria os desejos espontâneos da velhinha; uma ação politicamente incorreta e completamente
contrária aos princípios encarnados por ela mesma que, lembro novamente, são os mesmos invocados pelo
lobo mau no seu primeiro encontro com Chapeuzinho: realizar de modo imediato os próprios desejos e
viver livremente os deleites da vida sem qualquer restrição moral.
Ensinam ainda os contos populares, que tratam a respeito do "canis lupus", (como, por exemplo, aquele
que narra a história do lobo vestido de cordeiro), que essa espécie, além da capacidade para o
disfarce pode se apresentar, para conseguir seus fins, completamente inofensiva, delicada e mesmo
doce como um carneirinho. A versão de Chapeuzinho Vermelho que Charles Perrault imprimiu, no século
XVII, também confirma esse aviso, nos versos que arrematam a história:
"Mais, hélas qui ne sçait que ces loups
doucereux De tous les loups sont les plus dangereux!"(1)
Com o lobo, agora, sem o disfarce de carneirinho é facílimo reconhecer que o filme - dissimulado,
também ele mesmo, em celebração da liberdade - é na realidade um ataque irônico, uma zombaria e uma
gozação de virtudes sensatas e sábias. A fita não tenta somente nos enganar quando procura nos
impingir o vício disfarçado em virtude, mas o faz também quando copia e distorce muitos assuntos e
cenas de outros melhores filmes (A festa de Babete, Como água para chocolate). E, a ambigüidade é
tal que a gente termina sem saber se ele é um filme francês com todo mundo falando em inglês ou um
filme inglês sobre franceses.
Assim sendo, é em tom de chacota que o narrador do filme nos induz a tomar, de saída, uma posição
contrária aos valores da pequena cidade quando diz que:
"Era uma vez uma cidadezinha francesa onde
os moradores viviam em tranqüilidade. Se você vivesse nessa vila
saberia o que se esperava de você, conheceria seu lugar no esquema
das coisas e se acontecesse de você esquecer isso alguém lhe
lembraria. Assim, no tempo bom ou no tempo mau, na alegria e na
tristeza os moradores mantinham suas tradições".
É, também, com a mesma intenção avacalhante que o diretor pinta o conde Reynaud (Alfred Molina) de
um modo exageradamente caricato para induzir-nos a enxergá-lo como um careta autoritário, mesmo que
para tanto sacrifique completamente a coerência, pois o roteiro de Robert Nelson Jacobs diz, ao
mesmo tempo, que o personagem é "religioso, trabalhador, modesto, disciplinado,
cumpridor de seus deveres" e que "acredita na sabedoria das gerações
passadas".
Qualquer pessoa, cujos olhos ainda não foram engolidos pelo lobo mau, verá que não existe nada de
condenável nessas virtudes. Mas, Hallstrom não pensa assim e contrapõe a elas as atitudes e os
comportamentos, (que ele crê excelentes), daqueles que vivem somente para a satisfação de seus
apetites que são, por isso mesmo, mostrados como corajosos, inteligentes, tolerantes e cheios de
alegria de viver. O caminho fácil e mágico proposto para se conseguir tal proeza é praticar certos
ensinamentos, baseados nos poderes que teria o cacau para liberar os desejos escondidos e que Vianne
aprendeu com sua mãe, uma índia maia. Práticas e ensinamentos que são um verdadeiro manual de
auto-ajuda pelo chocolate, no mais puro estilo nova era.
Para quem não sabe informo que Hallstrom é um exemplo cínico e acabado da atual cultura esteticamente
correta vendida por Hollywood, para a qual quem não tem como filosofia de vida a satisfação dos
desejos só pode ser um hipócrita supersticioso, um reprimido ou um espancador de mulheres.
Mas, não resumam simplório modo que a mensagem central de Chocolate seja: autocontrole é o ruim e
indulgência sensual é o bom. Concluir assim é esquecer que o lobo mau é antes de tudo um gourmand
insaciável. No recheio de Chocolate, os sibaritas podem saborear muito mais do que esse preceito que
afirma a indulgência sensual como uma coisa boa; eles podem deleitar-se nela muito mais, pois o
ensinamento da fita vai além quando proclama, sobretudo, a sensualidade como o grande remédio para
a cura para todas as doenças, males e sofrimentos. E não pensem que é só isso, pois no festim de
chocolates com pimenta do senhor Hallstrom não se faz economia ao servir bobagens. Os hedonistas
podem ainda nele degustar a doutrina que afirma ser o autocontrole não apenas uma coisa má, mas
nomeadamente o próprio mal.
Assim, na fita multiplicam-se as cenas em que se faz propaganda das benesses do prazer irrestrito e
do não conformismo; ou onde se mostra como enfadonho qualquer valor moral e se exibem episódios que
ridicularizam os defeitos daqueles que são religiosos e tentam honrar a Deus.
Uma cena resume tudo que foi dito anteriormente. Uma noite, o conde, rígido defensor do jejum da
Quaresma, deixa rolar seu desejo pelos chocolates e invade a chocolataria onde, literalmente, ele
mesmo rola na vitrine da loja sobre os doces e os bombons até o dia amanhecer. Tolerante, Vianne
promete que não vai contar nada para ninguém, ajuda-o a limpar-se e o conde sai com a alma novinha
em folha, redimida pela...gula.
Mas, existem ainda várias tramas secundárias compostas para enaltecer as virtudes do chocolate e as
conveniências da ideologia defendida por Lars Hallstrom.
Armande Voizin está gravemente enferma com diabete e brigou com a filha porque não quer se submeter
à disciplina exigida pela dieta que faz parte do tratamento para a doença. Em contrapartida,
Caroline Claimont (vivida por Catherine Ann-Moss) não permite que ela veja o neto. Mas, não se
preocupem desnecessariamente porque tudo se resolve - com chocolate - depois de uma visita da vovó
à chocolataria, onde ela se reconcilia, às escondidas, com o neto e em seguida se entope de doces
e passa gloriosamente desta para melhor. Josephine Muscat (personagem de Lena Olin) é tão mal
tratada e espancada pelo marido grosseiro e estúpido que enlouquece e se torna cleptomaníaca; nada
de tão sério que algumas doses dos bombons mágicos de Vianne não possam resolver: Josefine não só
encontra forças para se separar do marido violento e depois bater nele até desmaiá-lo, mas também
se cura completamente da doença mental! Uma outra personagem sofre com o completo desinteresse
sexual do esposo, mas depois de umas pastilhas de chocolate temperadas com pimenta, o maridão
volta à atividade e a mulher fica feliz de novo. O amor não é lindo?!
As cenas descritas anteriormente mostram claramente como a ideologia que sustenta "Chocolate" reduz
o ser humano apenas ao seu aspecto biológico e sensorial, quando preconiza uma substância química,
supostamente contida no chocolate, como solução tanto para os problemas do corpo, como para os da
alma e pasmem para os do espírito também. Não acreditam? Acham que exagero?
Pois bem, recordem o sermão do Padre Henri (Hugh O'Connor), no final do filme, que poda a mensagem
cristã de seu lado divino e a reduz ao apenas humano, numa homilia, tão estereotipadamente anticristã,
que nem disfarça o uso do jargão, excluído/incluído, a última moda da nova esquerda. Nesse discurso,
o ambíguo sacerdote, que antes servia como porta-voz do moralismo do Conde Reynauld, agora
contaminado pela fragrância do chocolate maia, revolta-se e prega que devemos deixar de lado, como
coisa secundária, a divindade de Cristo e considerar como fundamental o seu lado humano. Daí, como
conseqüência desse cristianismo invertido, ele recomenda que o bom cristão deve ser inclusivo,
tolerante e menos rigoroso; deve, portanto, deixar de lado a rigidez da penitência e esquecer o
doloroso sacrifício do filho de Deus, parar de se governar pela fé e pela razão, como recomendado
pela tradição, e reduzido apenas à dimensão humana e biológica, guiar-se pelos sentidos, pelos
desejos e pelas paixões.
Não pensem que estou aprovando ou defendendo o estilo moralista do conde, que não sabe mais qual o
sentido profundo da Quaresma. Sei muito bem que o moralismo é uma forma de decadência que se
manifesta quando os representantes de uma tradição religiosa não compreendem mais os princípios
intelectuais e metafísicos que fundamentam a doutrina que devem transmitir. Mas, a emenda é pior
que o soneto, pois o Padre Henri foge de sua missão apostólica e substitui a verdadeira doutrina do
Cristo, que deveria transmitir intacta ao seu rebanho, por outra invertida, quando se deixa seduzir
pelos falsos preceitos do lobo mau, vende barato sua alma e esquece que no evangelho se diz:
"O mercenário,
porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê
que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e
dispersa as ovelhas".(João, X, 12).
Vocês podem procurar à vontade em qualquer uma cultura - que garanto não vão encontrar - a afirmação
de que a satisfação dos estômagos e dos desejos sensuais deva ter precedência sobre a nutrição da
alma e do espírito. Muito antes pelo contrário, é um consenso da sabedoria de todos os povos, até
mesmo entre os mais primitivos, admitir que algum tipo de conhecimento metafísico precede, no tempo
e na hierarquia dos valores, as pulsões sensoriais e materiais porque a correta graduação das
capacidades da alma humana é o pré-requisito da ação correta no mundo sensível. Queiram ou não
os seguidores do lobo mau, é na Bíblia e nos Evangelhos que estão os princípios metafísicos que
fundamentam a compreensão de nossas almas e dos quais emanam as normas da ação correta em nossa
sociedade. Os fatos da vida do Cristo e sua doutrina, narrados nos textos sagrados, efetivamente
sucederam, e por serem símbolos exemplares acabaram por se tornar o padrão estrutural de
significados para todas as realizações do espírito, da alma e do corpo da civilização ocidental.
Se vocês observarem bem, verão que os modelos simbólicos cristãos permeiam toda estética, ética
a ciência do ocidente. Negá-los e substitui-los por uma mentira - nascida da inversão e da
perversão da hierarquia natural dos valores humanos que coloca o intelecto a serviço das
sensações e que nos é servida, pela tecnologia hollywoodiana, embalada no charme doce e
exótico dos restos de um antigo culto à sensualidade - é uma ação diabólica. Não fiquem
chocados, pois quem afirma isso não sou eu, mas o próprio Cristo em Mateus 4: 1,12 e Lucas
4: 1, 13, onde são descritas as três tentações que ele sofreu no deserto e que o Padre
Henri decidiu esquecer, infelizmente junto com muitos outros seus progressistas
companheiros de batina que são atualmente padres católicos somente na aparência.
Essa ação diabólica, que se manifesta através do pragmatismo utilitário e pela colocação do sensorial
acima do intelecto é representada no relato do evangelista pelo desafio de transformar pedras em pão.
Para entender melhor o episódio, é necessário lembrar que a pedra sintetiza os significados de
firmeza, imutabilidade e estabilidade da inteligência espiritual que se expressam especialmente no
simbolismo da pedra filosofal, da pedra angular e da pedra fundamental. É essa pedra que o demônio
desafia o Cristo a transformar em pão, alimento material para a carne, consumível e efêmero, através
do uso invertido da força mesma do espírito: "- Se
és o filho de Deus, ordena que essas pedras se tornem pães". A essa prostituição do intelecto; a esse desvio dos fins para os quais ele naturalmente
se destina; ao uso invertido da inteligência, submetido à ação pragmática, utilitária, materialista
e sensual, Cristo opõe a primazia do conhecimento perfeito transmitido diretamente pela instância
espiritual, quando diz ao demônio: "- Está escrito: Não só de pão vive o homem,
mas de toda a palavra que procede da boca de Deus".
Fica claro que esse ensinamento presunçoso, infelizmente tão comum em nossa época - que é o miolo do
Chocolate de Hallstrom - que submete o intelecto à imaginação e à sensação, tem como objetivo dar
livre curso aos desejos, suprimir qualquer regra moral e rebaixar o homem a um nível inferior ao do
animal, ao mesmo tempo em que o engana com a trágica ilusão do orgulho de estar "evoluindo
espiritualmente".
Enquanto escrevia os últimos parágrafos, já estava ouvindo os gritos de certas alminhas sensíveis e
deleitadas com a obra de Halstrom me acusando de opinioso, de violência exagerada contra os direitos
lupinos, de crueldade por rasgar os disfarces dele e ainda me incriminando de mais execrável e
torturante ação: ficar enchendo o saco delas, do pobre animal e o de seus quejandos com esse papo
pesado de intelecto, espírito, verdade, fé, razão, virtudes e moral cristã.
Respondo tal alarido dizendo que segui apenas e fielmente o ensinamento cristão e o exemplo de
Chapeuzinho Vermelho, a autêntica, narrado no final de sua história. Final no qual, todo mundo sabe,
o caçador cortou a barriga do lobo, retirou de lá Chapeuzinho e a avó, e depois a menina encheu o
abdome da fera com muitas pedras, conforme contam os irmãos Grimm:
"Como era escuro dentro do lobo. Depois, a avó
velhinha saiu viva também (da barriga do lobo), mas quase sufocada.
Chapeuzinho Vermelho, então, rapidamente apanhou umas pedras grandes
com as quais encheu a barriga do bicho. E quando ele acordou quis
fugir, mas as pedras eram tão pesadas que ele caiu de repente e
morreu".
Ora, é exatamente isso que estou fazendo desde o início das minhas escrevinhações quando denunciei
os disfarces do lobo mau e depois quando enchi a paciência dele com as pedras pesadas da razão.
Afinal, não custa nada lembrar (de novo aos distraídos) que as pedras, enfiadas por Chapeuzinho na
pança escura (leia-se ignorante) do lobo mau, são símbolos, primeiramente, desde um ponto de vista
universal, da imutabilidade, da consistência e da estabilidade do intelecto. E secundariamente,
elas podem representar também a faculdade da razão desde um ponto de vista cosmológico, que é o da
astrologia, saber cujo simbolismo sugere também mesmíssima interpretação quando coloca, ao mesmo
tempo, as pedras e a faculdade racional sob a regência de Saturno, o senhor da sétima e mais alta
esfera dos céus, que desde cima abarca todas as outras até a mais baixa delas, a da lua, exatamente
a que rege os desejos.
É por essas e outras, que entre a propaganda feita por essa contrafação de conto moral invertido
que é "Chocolate", - onde se afirma que o certo mesmo é viver somente para o prazer porque todos
aqueles que apontam os obstáculos morais a esse tipo de vida são caretas, tacanhos, intolerantes,
beatos, retrógrados ou reacionários -, e as advertências dos contos tradicionais sobre o lobo em
pele de cordeiro, parece-me mais saudável absorver estas últimas.
(1) "Mas, ai de
quem não sabe que esses lobos melosos/ Dentre todos os lobos são os
mais perigosos".

Leia a crítica que o site Porto do Céu recebeu sobre este artigo e a resposta de Cid de Oliveira, no artigo "Dona Maria e a moral do Lobo Mau"
Cid de Oliveira é astrólogo.




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