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As aranhas e os fios do destino
Cid de Oliveira - Astrólogo

ilustração: George Freitas De longe, o telhadinho vermelho, no alto morro, parecia tocar o azul do céu. Embaixo dele, a casa pobre e pequena era tão limpa, que mesmo pareciam jóias asseadas as muitas teias de aranha suspensas das pontas dos caibros; - e, talvez, por isso mesmo a dona do lugar teimava em não tirá-las. Na verdade, ali tudo se passava diferente de em outras partes. E podem acreditar que toda e qualquer criatura, que naquele lugar penetrava, passava, logo fácil, para o natural - mais leve e menos impura. Branca de porta e janela azuis, a casa de Estelinha de seu Jove, mirava o mundo de cima; bem no meio do morrinho. Ainda lembro, precisamente, da primeira vez em que a vi com um vestidinho vermelho; e, ainda mais vivo, recordo o aparecimento em mim do súbito alumbramento, que arrumou toda minha alma segundo norma nova. Eu ia completar dez anos e ela, naquele dia, me pareceu ter quase nove. (Aqui, me obrigo a dar maior precisão à informação para, antecipado, dirimir estranhezas. Acontece que, Estelinha de seu Jovelino era daquelas raras pessoas, que parecem não ter alguma idade certa. Era, também, marcante figura, que me deixou, já no primeiro olhar, a impressão de conhecimento antigo, de muito tempo, de desde sempre).

Saibam, o senhor e a senhora que me lêem, que existiu, pois naquela casinha, Sinhá Estelinha, diversa de todas as outras pessoas, vivente naquele cantinho da fazenda do coronel Zé Maciel, em Belo Jardim, interior de Pernambuco, no Brasil mesmo. Tinha o corpo pequeno cinturado, em parecença com o de menina nova desabrochando; no todo, leve e gracioso, em perfeito contraponto com aquela firmeza de pisar e caminhar, só dela. As mãos e os braços delicados produziam firme e poderoso aceno, sem estabanamento ou estouvamento algum. Mas, não pensem, apressados, que essa breijeirice a tirava da compostura, pois, conquanto ela mesma relaxada, deixava adivinhar-se firme eixo, divulgado na coluna sempre reta. Reto também o olhar, que se saia desde os olhos: duas bondades abençoando a gente. E ria. Ria grátis, com todas as luzes. Ria-se muitas vezes, também, um pouco de si, semelhando que nunca se queixasse. A voz sossegada, como que cantava cadenciada numa força diferente. Falava muito em Deus, e de um jeito como se Ele, mesmo invisível, estivesse bem ali à mão, ao chamado. Era bom ficar escutando o que falava. O povo dizia que Estelinha de Jovelino Olímpio tinha muita leitura, muita vida aprendida, a qual ensinava sem nenhum esforço. O que firme de doce falava - a gente fazia. Mandava sem nem querer. Mesmo sem saber direito quem ela era, percebia-se nela os poderes. E todos, do lugar, concordes sabiam que ela nunca neles se exibiu, e mesmo os conservava escondidos, com sobranceira completa posse. E apesar de jamais terem visto essa sua interna, mas evidente força, ser arremessada contra alguém, prestavam a ela muito respeito.

Deste modo era a minha querida Sinhá Estelinha. Uma mulher senhora, uma Velhinha.

Como é de acontecer comum no interior, de muito repetidos, os nomes se transformam em outros corrompidos e, no entanto, muitas vezes mais expressivos. Assim, Nhá Estelinha, - no batismo e certidões inscrita e escrita Astéria Paz da Fonte -, se multiplicava em dona Astéia, dona Astréia, Vó Estela ou, até mesmo, em dona Atéia, como insistia em escrever seu Antônio da venda no cabeçalho de múltiplas produzidas notas de compras, que ela guardava como signo da ignorância em geral e testemunho desimportante do desconhecimento particular do dono da venda sobre sua firme religiosidade. Vó Estela, católica de estrita observância, não perdia uma missa de domingo, e sua vida, diga-se, era constante oração, pois mesmo chamava de meditação o seu trabalho no tear, e sempre antes de começá-lo persignava-se dizendo o ato de contrição. Foi ali, sentado num tamborete aos pés de Sinhá Estelinha, que aprendi com ela muita coisa sobre esse Mundo de meu Deus.

Incerta vez, junto do tear, quando nem lembro, ouvi Sinhá Estelinha explicar porque não limpava as teias de aranha em volta da casa:

- "Meu menino, não se deve espanar teia de aranha para não enxotar junto a felicidade. Quando Nossa Senhora ia fugindo para o Egito - junto mais São José e o Menino Jesusinho - escondeu-se numa gruta, com a perseguição doida dos soldados do Rei Herodes atrás dela. Então deu-se que uma aranha, com pena deles, teceu ligeira uma teia na entrada, que cobriu tudo. Quando os soldados passaram não procuraram os fugitivos lá dentro da gruta, pois a teia indicava que há muito tempo ninguém podia ter entrado ali. Assim que saiu do refúgio, Nosso Senhor abençoou a aranha e sua teia. É por isso que não devemos matar a aranha que tece a teia frágil que engana os soldados e esconde o Menino Deus. A teia é garantia de felicidade e proteção. Agora, p'rá saber mais, vá lá fora espiar as aranhas."

Narrou tudo isso com travessos, brilhantes, claros olhos que sugeriam haver muito mais coisas no que ela deixou de dizer, do que em tudo que falou. E mais, juntou o tom de voz que, nessas ocasiões, Nhá Estelinha produzia mais claro, direto, preciso e modulado de certeza. Desse modo, voz e olhar eram forças unidas que obrigavam a inteligência a mover-se em busca de outros mundos. Quando ensinava uma verdade, a Velhinha somente a assinalava de modo breve e instigante, para que contagiado por súbito e luminoso espanto pudesse, quem apto fosse, chegar sozinho ao território firme de nova realidade. Assim, a cada qualquer coisa que ela notava e falava, a gente mesmo podia seguir depois, sozinho, achando mais valor. Em qualquer caso, da vida dela mesma, ou da dos outros, tirava alguma pertinência de lição. E muito mais ainda tirava das coisas, do mato, dos bichos, da noite, do céu, do sol, das estrelas. Mas, era preciso escutar direito quando ela falasse, para o tino da gente se preencher daquele ensinado outro modo de se ver além. As suas mais simples palavras formavam o modo de pensar por caminhos novos. Foi assim que Dona Astéria me ensinou a amar e entender os símbolos, dizendo uma coisa, mas referindo sempre muitas outras. Quisera eu ter mais tempo para contar, aos senhores, tantas outras boas notícias sobre ela.

Obediente, então, aos métodos pedagógicos de Vó Estela, fui espiar as aranhas para ver mais profundo e talvez achar a doutrina escondida por trás do véu da historinha estranha.

Digo pois, para o senhor e para a senhora, que anotei primeiro a aranha tecendo, com um fio que tirava de si mesma, a teia, onde ocupava o meio. Conclui, então, que ela é fiandeira e tecelã a um só tempo; e, conforme disse a Velhinha, que sua "teia frágil engana os soldados e esconde o Menino Deus". Espero concordem, o senhor e a senhora, que tudo indica ser nessa frase, entendida ao pé da letra, onde se encontra o caroço do enigma.

Advinhe-se, então:

- O que é, o que é, que esconde a divindade daqueles que a buscam, ou daqueles que a perseguem?

Vislumbrem, meu senhor e minha senhora, que a pergunta posta assim dessa maneira revela-se como a mesmíssima questão que, pelo menos há mais de dois mil anos antes de Cristo, foi enfrentada pelos sábios hindus e que Nhá Estelinha, sintética e sem vacilar responderia assim: a teia da aranha. E mais espantem-se, se quiserem, porque essa foi a mesma resposta encontrada pelos sábios da Índia depois de se afundarem, durante séculos, em suas poderosas meditações.

Para compreenderem o que afirmo, atentem para o fato de que a teia com sua fragilidade é, neste caso, representação da realidade manifestada mesma, pois como é fácil observar, esta também se compõe, toda ela, do emaranhado cruzamento dos fios fracos das aparências ilusórias, enganosas e impermanentes, feitos da substância do apego aos desejos e às sensações. Quanto à aranha, posta lá na origem dos fios, é evidente figuração da tecelã cósmica, a Maya dos indianos, que produz desde si mesma o mundo, esse véu de ilusões que esconde (e protege) a Realidade Suprema. Está tudo lá, nos Vedas, nos textos relativos a Ela, Maya, a consorte de Varuna. Quem ler, comprovará. Para o bramanismo, o véu de Maya, gerado de sua própria substância, (como a teia da aranha), representa o complexo tecido da manifestação; e a realidade dessa existência mundana só vale a pena, para essa doutrina, na medida em que é vista como uma manifestação da essência.

Por isso, bramânica, à moda nordestina, Sinhá Estelinha não matava as aranhas, (nem mesmo não fazia mal a outro qualquer bicho algum), pois enxergava por trás dela a figura da grande mãe cósmica; e quando olhava para o inseto via mesmo era uma manifestação de divindade superior, talvez aquilo que os gregos chamavam demiurgo.

É impressionante como esbarramos sempre com a opinião dos gregos, toda vez que nos pomos a examinar qualquer assunto. Assim sendo, sem mais, ouçamos também o que eles têm mais para dizer.

Na Grécia homérica, a grande tecelã era a Moira. Na origem, uma divindade abstrata, não antropomorfizada, mas que, com o tempo, personificou-se e projetou-se na figura das três Moiras: Cloto, Láquesis, e Átropos, senhoras do princípio e do fim do destino dos homens. Cloto, a que fia segura um fuso; Láquesis, a que sorteia foi representada muitas vezes no mundo romano com um mapa astrológico nas mãos; e Átropos, a que não volta atrás, a inflexível, segura uma tesoura e com ela corta o fio da existência, produzido por Cloto. As Moiras, filhas da Necessidade, regulam a vida de cada ente por meio do fio que uma fia, a outra enrola e a terceira corta. Este símbolo indica o caráter irredutível do destino. Sem piedade, as Parcas fiam e desfiam o tempo e a vida. Em Roma, as Moiras foram identificadas com as Parcas. Consultem por favor, o senhor e a senhora, um bom dicionário etimológico e saberão que a palavra Parca provem do verbo latino parere, parir, dar a luz, fato que mais acentua a relação dessas deusas tanto com a vida quanto com a morte.

Talvez por isso, Homero tenha escrito desse modo a respeito de Ulisses, na Odisséia:

"Depois quando lá (em Ítaca) chegar,
sofrerá o que o Destino e
as graves fiandeiras (as moiras)
fiaram em seu nascimento."
(Odisséia, VII, 196-198).

Vejam como surgiu dessas informações sobre a Moira, novo e rico sentido para o simbolismo do fio, que o coloca em relação direta com o destino. Há que confiar no professor Junito Brandão de quem ouvi, mais de uma vez, que a melhor tradução para a palavra moira era parte, lote, ou ainda, quinhão que cabe a cada um. E mais informava ele que Moira jamais se modifica e permanece soberana acima dos homens e dos deuses. Ela é a parte de fortuna ou infortúnio que toca a cada ser quando do seu nascimento. É o certo e individual destino - palavra de tríplice sentido na linguagem comum e nossa de todo o dia.

Observem como, com freqüência, empregamos destino para significar sorte, fado, fortuna - referindo sucessão de fatos que constituem a vida do homem e considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade. Por outro lado, usamos a mesmíssima palavra para indicar, também, aquilo que acontecerá a alguém. E existe, ainda, terceira e importante acepção dessa palavra, que se emprega com o sentido de lugar para onde se dirige alguém ou algo, ou seja, meta a ser atingida.

Notem, meus amigos, que o uso do fio como símbolo do destino, da vida e da morte não se restringe a gregos e romanos, mas é propriamente universal. Os exemplos são inúmeros, tanto no Velho Testamento quanto na tradição hindu. Mas, enquanto, desde o ponto de vista grego, o simbolismo do fio, representado pelas moiras, aponta para os limites, as restrições e muito enfatiza o aspecto implacável do destino individual, na Índia, o simbolismo do fio assinala, de modo complementário, sua dimensão universal e libertadora, ressaltando no destino sua dimensão de meta suprema a ser alcançada. Conseqüentemente, para as doutrinas hindus, o fio é figuração do agente que religa todos os seres entre si e a seu princípio. O fio representa os meios de ligação com o Transcendente. Esse simbolismo se expressa, sobretudo nos Upanishads, onde se diz que o fio (sûtra) religa este mundo ao outro (o celeste), - um mundo de plenitude, luz e liberdade. Essa idéia de ligação é evocada, também, entre os gregos através do fio de Ariadne, elemento capaz de trazer o herói (Teseu) de volta à luz, fazendo-o escapar da morte (o Minotauro) que habita o mundo escuro do labirinto de Cnossos.

Reporto ainda mais uma semelhança: têm mesmíssima conotação simbólica os fios que ligam as marionetes à vontade central do homem. Neste caso, tanto o Mahabarata quanto os gregos partilham da mesma opinião, pois se lê no texto indiano: "Os gestos humanos são controlados por um Outro, como títeres de madeira presos num fio"; enquanto Platão recomenda nas Leis: "Consideremos cada um de nós como uma marionete fabricada pelos deuses".

Permitam-me agora, o senhor e a senhora, fazer digressão necessária e que acredito muito produtiva. É que, deu-se neste momento das minhas comparações, (exatamente enquanto lembrava da frase de Platão), forte fenômeno. Num repente, no centro da minha mente, o fluxo dos pensamentos dissolveu-se espontâneo na luz nítida da imagem lembrada de Nhá Estelinha: hierática, perfeito modelo de todas as tecedeiras, concentrada no tear, movendo a naveta em rítmico e preciso vai e vem, a tecer um tapete que, instantâneo, adivinhei ser o resumo mesmo da manifestação, a textura do Universo. E mais compreendi, sem esforço, nem movimento algum do espírito, que aqueles dois tipos de destino sobre os quais pensava antes, estão simbolizados, de modo muito claro, no tecido, que sintetiza em si os significados do fio e do tear. O fio de trama do tecido, (vertical no tear), figura o eixo imutável que religa os mundos e os seres entre si, e também ao seu Princípio. Enquanto, o fio de urdidura, horizontal e sempre em movimento, representa o desenvolvimento do destino condicionado e impermanente de cada um, esta vida. O vaivém da lançadeira descreve a alternância fatídica da vida e da morte, inspiração e expiração, dia e noite, o devir constante da manifestação, a dualidade. Por isso, desde um ponto de vista universal, o indiano, o fio de trama é simbolizado por Krishna, a divindade mesma, que diz a Arjuana, no Bhagavad Gita VII, 7: "Todo esse Universo (mundos e seres) está preso a mim como contas preciosa num fio"; e desde o ponto de vista do destino individual, caro aos gregos, o desenvolvimento do fio de urdidura é simbolizado pelas Moiras ou Parcas que inexoráveis fiam o tempo e o destino humano.

Como mais aconteceu, peço ainda alguma paciência e, principalmente, boa dose da confiança dos senhores, meus amigos na Ciência, para contar outra revelação que, seguindo-se à primeira, também num átimo se deu. Eis que, revi o sinal da cruz, feito tão contrito por Nhá Estelinha antes de começar seu trabalho, ressurgir à minha frente, agora imaginal, repercutido e furiosamente multiplicado em indefinidas cruzes, formadas pelos cruzamentos da trama e da urdidura do tapete, que escorria dos dedos dela, e cujos inúmeros centros eu via, transfigurados em pontos de luz, como se fossem cada um deles os entes que, ilustres desconhecidos, compõem a multidão inumerável da manifestação inteira.

Para findar com argumento ou qualquer dúvida ainda restantes, depois de tanto discorrimento sobre fios e destino, permitam-me redizer-lhes tudo resumido em diverso estilo, talvez melhor, pois produzido sob o impulso das ainda vivas luzes de Sinhá Estelinha, minha mestra, dentro de mim. Registre-se, então finalmente, que:

"um Deus velhíssimo, brincalhão e de múltiplos dedos - desses que amam peças e teatro - fez-se um dia diretor inspirado, roteirista, coreógrafo, iluminador, figurinista, cenógrafo e artesão máximo. Do seu hálito poderoso (cadeia finíssima, dourada, e plena de mágicas) Ele, Fio Primeiro, teceu os seres todos; e com um gesto único - que penetrou o universo inteiro - uniu-os a Si e entre si como contas de um colar sagrado e imenso. Desde então nos realiza e pratica como se fossemos marionetes, enquanto guia satisfeito as cordas de nossos cinco sentidos no espetáculo exato que exibe desde um sempre nesse palco, o Mundo. O fio da vida, a vida por um fio; destinos tramados, imperceptíveis quase".


Nota:

(1) Não se pode escrever sobre as verdades últimas, não se pode dizer exaustivamente como é a realidade; só se pode assinalar, para que os demais possam chegar a ela por si mesmos. A missão do mestre é contagiar seus discípulos com esse afã de realidade, para que eles se lancem, mediante penoso exercício à conquista da realidade mesma." Platão, carta VII, 341.







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