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Neruda: mestre de Mário
Mário: mestre de Neruda
Cid de Oliveira
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Astrólogo
Quando o Poeta do Amor chegou na ilha tudo se transformou. Quando ele se vai ressurge a vida
ordinária, comum e rotineira. Mário enfrenta, então, o desafio de fazer poemas sozinho, sem o
estímulo da presença do Mestre. Sem ele há insegurança, rejeição e crítica dentro da alma. Quem
expressa esses sentimentos é a tia que provoca Mário dizendo: "Passarinho que come vai embora".
Mas, Mário permanece fiel ao Mestre. E ele começa o seu grande poema na casa, agora solitária, onde
Neruda se hospedou, quando vai reunir os objetos deixados pelo escritor para reenvia-los ao Chile.
Ali, o prazer das boas lembranças é a inspiração. Inspiração para fazer poesia viva, poesia nas
coisas e com elas, criando junto a própria vida, como revela toda seqüência do gravador - que se
antes só conseguia gravar dentro, agora criativamente adaptado, grava fora. Confiante Mário começa,
então, a gravação de uma mensagem para Neruda com a seguinte afirmação: "Quando você foi embora
pensei que tivesse levado as coisas belas daqui, mas agora percebi que deixou algo para mim", frase
que mostra o respeito, a maturidade e a independência frente ao Mestre.
Como Mário é um poeta in re, nas coisas, ele vive seu poema nas coisas mesmas. Ele não o
capta das coisas através da mediação da escrita, mas o capta diretamente nas ondas, no som dos sinos,
nos ventos, na batida do coração do filho e mesmo no céu estrelado, como se estivesse refazendo a
criação. Esse é o poema mais radical e vital que pode existir.
O grande, único e sintético poema nas coisas que Mário pariu como um filho, dentro de um carrinho
de bebê, com a mesma força que gerou sua vida singular, é este:
Número um:
ondas em Cali Sotto. Pequenas.
Número dois:
ondas grandes.
Número três:
vento nos rochedos.
Número quatro...
vento nos arbustos.
Número cinco...
redes tristes do meu pai.
Número seis...
o sino da igreja. Com padre.
(Belo. Não havia notado antes
como era tudo tão belo).
Número sete...
céu estrelado na ilha.
Número oito...
o coração de Pablito.
É a poesia na vida mesma. A vida do poeta Mário é um poema. Ele não vê cada coisa como separada, mas
antes as enxerga todas como manifestações de algo maior que as transcende. Isso é o que se pode
chamar, sem erro, uma visão amorosa. Para um poeta desse talante todas as coisas, por menores que
sejam, não existem autônomas e separadas umas das outras, mas estão sempre solidárias no Amor maior
que faz tudo existir. Por isso, ele diz enfaticamente a Neruda que "a poesia não pertence àqueles
que a escrevem, mas a quem precisa dela", na cena em que este último se recusa a fazer uma poesia
para Beatriz Russo. Ele concebe seu poema sozinho, longe do Mestre, pois, como dissemos
anteriormente, a vida não nos é dada pronta. Ela é um a fazer que só pode ser realizado pela pessoa
mesma. Um outro não a pode viver. Este é um grande exemplo de vida inventada com a imaginação e no
impulso da força de Amor.
Uma vida que vale a pena ser vivida.
Uma vida que é criação e, portanto, é poiesis - uma ação poética.
Uma vida exemplar, pois ensina que a vida não nos é dada feita, nem como possibilidade; e por isso
mesmo nós é que temos de inventar essas possibilidades a cada instante.
Mas, a vida se compõe, também, da brutalidade do real. O poeta nas coisas morre numa manifestação
política organizada pelo partido comunista. Apresenta-se novamente a contraposição entre o social
e o íntimo; entre as exigências da coletividade e as da consciência individual. De certo modo, Mário
contraria sua vocação ao participar de um ato político. Na verdade, ele não está ali como ativista
partidário, mas como poeta que vem ofertar um poema ao mestre. Ele não prioriza as forças sociais e
políticas que estão em jogo em torno dele.
Neruda não recebe o poema-oferta porque, como poeta, não está pronto ainda para ouvi-lo, pois está
enleado nas coisas do Mundo. Ele só pode tomar conhecimento do ensinamento poético contido no poema
de Mário lá, no mesmo lugar onde sua introspecção começou, no ambiente da ilha, que pode ser vista
como centro interno e ordenador para o próprio Neruda. Afinal de contas, ele chegou ali exilado pelas
vicissitudes de um mundo, que poderíamos denominar exterior e profano. Por isso, ele volta para a
ilha com Matilde onde conhece Pablito, filho de Mário com Beatriz Russo, e ouve o poema de Mário,
filho da vida e da poesia.
São dois poetas se fazendo. O poeta das coisas aprende a reconhecer e integrar em si o outro tipo de
poesia, senão seus poemas serão apenas técnicos e literariamente corretos. Enquanto o poeta nas
coisas desenvolve os seus meios de expressão e a técnica. Assim, Neruda é, sem dúvida, o mestre e
poeta do Amor. No entanto, Mário Ruopollo também é um poeta do Amor. Mas, de tal ordem que seu poema
tem uma qualidade vital, básica e primordial. Tudo que foi dito aponta para a existência de uma
complementaridade entre a poesia que é representada por Neruda e aquela representada por Mario
Ruopollo. Temos, portanto dois tipos de poetas e por conseqüência dois tipos de poesia. Existe uma
troca de sabedorias entre Neruda, o poeta das coisas e Mário Ruopollo o poeta nas coisas.
Assim, além da existência de uma relação explícita, tipo Mestre e discípulo, entre Neruda e Mário
existe e se desenvolve, de modo interno e implícito, outra relação onde Neruda, no final, é quem
termina por aprender com Mário.
O filme, portanto, pode e deve ser enfocado, também, do ponto de vista do desenvolvimento de Neruda.
Ele é um indivíduo que foi exilado do mundo e colocado numa ilha onde tem a chance de encontrar
através de um humilde vivente a verdadeira Poesia, aquela nas coisas, que não o havia tocado ainda,
apesar de sua fama e do prêmio Nobel. Imagem e texto confirmam essa conclusão.
A imagem é a última do filme onde Neruda relembra sua relação com Mário, emocionado e mínimo em
frente à imensidão do mar, sob a altura majestosa do rochedo, completamente absorvido pela poesia
nas coisas.
O texto, (transcrito abaixo em tradução provisória), é o poema feito por Neruda em homenagem ao
amigo, que aparece depois dos créditos do filme, no qual ele reconhece honestamente que só naquela
instante encontrou a Poesia.
E foi naquela Época...
A poesia chegou me procurando.
Eu não sei, não sei de onde ela veio,
se de um inverno ou de um rio.
Eu não sei como nem quando.
Não, não eram vozes,
não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua eu fui chamado abruptamente
dos ramos da noite, dos outros,
no meio de um tiroteio violento,
e num retorno solitário lá estava eu
sem um rosto... e ela me tocou.
Pablo Neruda, o poeta das coisas
Cid de Oliveira é astrólogo.



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Qual a diferença entre a poesia vivenciada por Mário Ruopollo e a por Pablo Neruda?
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