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Hereditariedade
Celisa Bernager - Astróloga e arquiteta

A história da Astrologia mostra que a primeira referência à hereditariedade está em Ptolomeu, no Tetrabiblos, Capítulo 1 Livro III. "As posições que circundam o momento de nascer, induzem a que o nascimento concorde com o estado apropriado do ambiente que o rodeia. Porque a natureza depois de sua criação o faz mover-se para sair do corpo materno, quando a qualidade do ambiente se assemelha aquela em que se formou". A referência mais famosa entretanto é de Johannes Kepler no livro "De Arnonice Mundi", do século XVI: "Há um argumento perfeitamente claro além de outros, em favor da Astrologia, a reação horoscópica entre pais e filhos"1.

Neste século, várias pesquisas e estatísticas enfocaram a hereditariedade astrológica. A primeira foi a do francês Paul Choisnard, que em 1919 fez a primeira estatística astrológica e afirmou que havia uma tendência para que as crianças nascessem com o Sol, Lua, Ascendente ou Meio do Céu no mesmo signo dos pais. Anos mais tarde, em 1939, o estatístico suíço Karl Krafft, tido como astrólogo, afirmou no seu Traité d'Astrologie: "O homem não vem ao mundo sob um céu qualquer, mas sob um céu que mostra semelhança marcante com o céu de nascimento de outros membros de sua família".

Em 1950, os estudos de Choisnard e Krafft chamaram a atenção do psicólogo e estatístico alemão Michel Gauquelin, apaixonado por Astrologia na juventude, que verificando erros nestas pesquisas, sentiu-se traído pela Astrologia, e como bom escorpião que era, dedicou 40 anos de sua vida a estatísticas envolvendo a relação entre a posição dos astros no nascimento, os traços de caráter e da hereditariedade.

Tomando como base as posições dos astros em zonas próximas, e principalmente logo após a ascensão e culminação, que no Mapa correspondem ao Ascendente e ao Meio do Céu, Gauquelin desenvolveu o seu Método do Traços de Caráter, em função dos resultados encontrados para Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Visando a aceitação de seu método pelo meio acadêmico, Michel, auxiliado por sua primeira esposa, Françoise fundou o Laboratório de Estudos da Relação entre ritmos cósmicos e psicológicos. Entretanto, apesar de atender às regras da estatística científica, após longos anos, apenas dois ou três cientistas aprovaram seu trabalho. Por outro lado, mesmo sem pretender, o trabalho do casal Gauquelin estabeleceu as fundações para uma Astrologia Científica, validando a força dos eixos principais do Mapa (Ascendente, Descendente ou Meio do Céu e Fundo do Céu) e fundamentando a premissa astrológica da correlação entre a posição dos astros no nascimento e a personalidade, porque os traço definidos para Lua, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno coincidem com seus significados astrológicos.

Entretanto, quanto à hereditariedade, tendo trabalhado com cerca de 100.000 datas, apesar dos primeiros experimentos calculados a mão apresentarem a tendência das crianças nasceram com os mesmos astros dos pais nas zonas fortes já encontradas para os traços de caráter, quando repetidos por computador, os resultados perderam a grande significância. Em um último experimento, o resultado foi um pouco mais encorajador para nascimentos, nos quais pai e mãe apresentavam um mesmo planeta nas zonas fortes, mas não apareceu a mesma significância estatística inicial.

As experiências em computador, na década de 80, levaram Gauquelin a rever a posição anterior, quanto à partos cirúrgicos impedirem a hereditariedade, concluindo que a interferência médica não modificava a distribuição das horas de nascimento e portanto não influía na hereditariedade.

Motivado pela pesquisa Gauquelin, e utilizando dados por ele fornecidos, o italiano Ciro Discepolo, astrólogo experiente, auxiliado pelo também astrólogo Luigi Mieli, montou em 1990 uma pesquisa para provar a hereditariedade em termos de Zodíaco. Foram estabelecidas 25 variáveis relacionando os signos do Sol, Lua e Ascendente e as casas do Sol e da Lua de pais e filhos. Os resultados obtidos, em um experimento com 8.219 datas foram analisados pelo Departamento de Matemática e Estatística da Universidade de Nápoles. A evidência principal, com alto nível de significância estatística, foi que as crianças nascem com mais freqüência com o Ascendente no signo do Pai ou da Mãe. Outras variáveis também apresentam significância. O signo do Sol filho no signo Ascendente da Mãe. O Sol do filho na mesma casa do Sol do Pai. A Lua do filho na mesma casa da mãe.

Entretanto, em um segundo experimento, com cerca de 4.000 datas de italianos, a significância relevante foi encontrada apenas para a relação do signo Ascendente do filho com o signo solar do pai.

Inspirado pela pesquisa Discepolo / Miele, contando com a colaboração de alunos e colegas para o fornecimento de dados e com a participação de alunos, montei um pequeno experimento com 610 datas constando de 33 variáveis, envolvendo relações por signo e casa como as da pesquisa italiana, e acrescentado a ligação de planetas ao Sol e Lua e ainda planetas em conjunção de até 10O aos pontos Ascendente, Descendente, Meio do Céu e Fundo do Céu. Para verificar a validade dos resultados encontrados, montamos depois famílias falsas, juntando filhos de uma família com os pais de outras.

Resultados encontrados

Lua do filho na mesma casa do Pai, ascendente do filho no signo solar da mãe. Lua do filho no signo do Ascendente do Pai. Sol do filho no signo lunar da Mãe.

Com relação aos aspectos e angularidade, embora possam ser verificados na prática, eles apareceram na mesma proporção nas famílias falsas e perderam então a importância.

Dispondo dentre os dados fornecidos de famílias compostas por três ou quatro gerações, fizemos alguns estudos por família e montamos duas árvores genealógicas para avaliação em um conjunto familiar mais amplo.

A primeira família, composta de 11 membros diretos, apresentou força nos signos de Gêmeos e Câncer e na ligação da Lua com Urano.

A segunda família, composta de 20 membros diretos, apresentou uma forte predominância do Sol no signo de Câncer e na ligação do Sol com Júpiter.

As pesquisas de Choisnard, Krafft, Gauquelin e mesmo a de Discepolo e Mieli, mostraram a dificuldade para comprovar a hereditariedade astrológica quantitativamente o que de forma alguma significa que ela não existe. A questão é que a Astrologia lida com símbolos que são elásticos e qualitativos.

Minha conclusão, até agora, é que o caminho para verificarmos se há possibilidade de localização de fatores que possam ser isolados e levem à formulação de uma hipótese que possa vir e ser testada amplamente, está no estudo de características próprias em famílias com 3 ou 4 gerações.

Todavia, a grande questão é como localizar estes fatores porque minha experiência, até o momento, mostrou que as famílias tem características próprias que muitas vezes são específicas de apenas um sexo. Verificamos em uma família, que avô, filho e neto, tem um "stellium" envolvendo o sol na casa 9. Em outra, o avô, filho e neto, tem a conjunção de Lua e Saturno. Outro ainda, o avô, um dos filhos e o neto por parte deste filho tem Plutão em conjunção com o Ascendente. Mas os signos também aparecem, temos então, um exemplo no qual a mãe e as duas filhas têm a Lua no mesmo signo.

Outra questão que observei, é que muitas vezes a hereditariedade astrológica, como a herança física, pula uma geração, como podemos encontrar famílias em que o neto tem os olhos azuis, como os do avô, e o pai não tem. Algumas vezes a criança nasce no mesmo dia do avô ou avó ou com o Ascendente no mesmo signo Ascendente do avô e não da mãe ou do pai.

Continuarei o meu trabalho, mesmo que não consiga localizar fatores que levem a resultados qualitativos. Talvez, possa encontrar correlações mais seguras, e caso consiga isto, poderei contribuir para o fortalecimento do saber astrológico, ainda baseado em correlações.


1- No livro Die Astrologie Dês Johannes Keple de H. A. Strauss, encontramos uma carta de Kepler a seu mestre Maestlin, em que ele cita as similaridades e inter-relações entre mapas. "Observe a semelhança entre dois nascimentos: Você nasceu sob uma conjunção de Sol e Mercúrio e seu filho também, ambos com Mercúrio antes do sol. Você tem um trígono Lua, Saturno e ele quase um sextil, você tem um quase trígono Sol Saturno como ele. No ponto em que está o seu Saturno e ele tem Sol e Mercúrio. Onde está sua Lua encontra-se o Júpiter dele.

. Agradeço a Anamaria Mastrogiavanni, Deborah Camacho, Fausta Boscacci, Marilda Goulard, Sônia Nery e Thereza Samuel, sem quais teria sido impossível concluir a pesquisa.






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