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Como a Astrologia se relacionava com as crenças religiosas tradicionais?
Cid de Oliveira
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Astrólogo
Para esclarecer melhor devemos lembrar que a Ciência na antigüidade, e mesmo em certo período da Idade Média, tinha como base normativa os princípios doutrinais da tradição em que estava inserida. Assim, a forma de Ciência Astrológica que surgiu em 300 AC, por exemplo, está impregnada e moldada pela visão de mundo, pelas concepções sobre o destino último do homem e pela crença na existência de um Ser Superior, próprias do hermetismo de Alexandria.
Do mesmo modo a Ciência Astrológica Medieval incorporava os princípios aristotélicos-cristãos a respeito do papel do homem neste Mundo. Todas as grandes tradições espirituais do mundo concordam de modo geral com esse papel. Existe a premissa de uma Consciência Divina preexistente. O universo é uma criação consciente e com sentido. Dentro dessa criação está o homem para cumprir um papel específico - tendo a liberdade de cumpri-lo ou não, de acordo com seu livre-arbítrio, compreensão e consciência.
O reconhecimento e a aceitação desse papel estão no núcleo de todas as tradições espirituais verdadeiras do mundo. A linguagem pode diferir de uma tradição para outra, mas a mensagem é a mesma. Estamos neste planeta com um propósito. Todos nós nascemos com a centelha da Divindade dentro de nós. Um cristão diria que Cristo habita o coração; um budista diria que todo homem é um Budha.
Para essas tradições, dentro das quais a Astrologia tinha um papel integrado e coerente, o dever e o privilégio do ser humano é transformar essa centelha divina em chama; partir do carnal, alcançar a visão espiritual de todas as coisas e integrá-la a si mesmo. Desde esse ponto de vista o único esforço humano válido e conseqüente tem um propósito espiritual e não físico, mas ocorre no mundo físico. Uma ciência que aceite esses pontos poder-se-ia chamar propriamente Ciência Sagrada. Tal como a ciência de hoje, ela estudava também o mundo físico, mas por motivos e pontos de vista bem diferentes. Os sábios antigos não estavam interessados nos fatos por si e em si, despidos de seu contexto vivo. Seu interesse era estabelecer precisamente as relações do Homem com o Cosmos. Pois o cosmos era, e é, o teatro onde o drama humano era encenado. O estudo da idade do universo ou da estrutura química dos quasares teriam sido empreendimentos sem interesse ou valor para eles. Acima de tudo teriam considerado esses estudos sem valor prático. Ao passo que, a edificação de um templo consagrado a um Princípio Divino específico, seguindo as leis de uma geometria e de uma arquitetura sagradas, capaz de por seus sacerdotes em contato com esse Princípio, seria algo sumamente prático, e não importava o esforço despendido na tarefa. Temos como exemplo recente, dentro da tradição cristã, a construção das catedrais góticas onde se percebe facilmente a presença da Astrologia Sagrada tanto nos elementos da decoração quanto na orientação desses templos.
Mas, essa comunhão entre Ciência Sagrada e Religião foi rompida no ocidente a partir do século XVI. E hoje, em 1998, a Astrologia, como todas as outras ciências que atuam independentes de um corpo doutrinal capaz de lhe dar validade e resolver os problemas que não lhe competem, parece um peixe que se debate fora d'água. Por isso os astrólogos são forçados a buscar nas formas novas de pseudo-esoterismo, nas inovações místicas oferecidas no mercado as bases doutrinais que não possuem mais. O que cria uma confusão entre a sã Astrologia e as mais diversas formas de pseudo religião, métodos de auto-ajuda e práticas divinatórias.
Toda minha contribuição para Astrologia tem sido realizada sem perder esse ponto de vista: a Astrologia deve ser praticada como Ciência, e se possível desde os mesmos pontos de vista dos povos onde ele se originou e descritos acima, e sem confundir-se com práticas divinatórias de origem puramente psíquica.




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