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Uma carta sobre causas e Astrologia
Cid de Oliveira
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Astrólogo
(Devido a uma carta que recebeu do leitor Marcelo, o astrólogo Cid de Oliveira redigiu o artigo abaixo, tentando responder a mais complicada das perguntas no estudo dos astros: o que causa o fenômeno astrológico?)
Caro senhor Marcelo, de saída quero agradecer-lhe, pois é reanimado pela sua mensagem que lhe respondo. E isto se deve, acredite, ao ponto de vista em que coloca sua pergunta. Acompanhe, por favor, meus motivos.
Caso é que já havia, a contragosto, me resignado com o fato de que tanto as perguntas quanto o debate sobre a astrologia haviam se fixado irremediavelmente em torno da questão se a ela funciona ou não, limitando-se tudo, muito mesquinhamente, apenas às discussões sobre as práticas divinatórias ou diagnósticas dessa disciplina. Como conseqüência, inventa-se todo dia inúmeras novas técnicas e pontos, numa quantidade tão grande de hipóteses, que impossibilita a verificação
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"Existe mesmo uma influência dos planetas
sobre os homens?"
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da validade de cada uma, pois não existe o esforço correspondente na direção da concepção de uma teoria geral que as ordene. Ninguém se pergunta primeiro, (o que seria o lógico), se o tal fenômeno astrológico existe mesmo. Fascinados pelos aspectos mais externos da astrologia deixam de lado o cerne mesmo do problema. É evidente que, se existe tão estranho fenômeno, o mais importante seria perguntar de saída, quais as causas dele. Qual sua natureza? Como conhecê-lo cientificamente? Ora, são exatamente essas as perguntas que o senhor faz. E é isso que me reanima.
Pergunto-lhe, no entanto:
- Percebe o senhor que sua pergunta é, de todas as relativas à astrologia, a que mais dificuldades oferece? Se duvida, lembro-lhe que Santo Tomás de Aquino expôs sua teoria para explicar o fenômeno astrológico, na Suma Contra os Gentios, em 1258, no século XIII e somente seis séculos depois, no ano da graça de 1988, é que surgiu uma segunda hipótese explicativa completa sobre o mesmo problema apresentada pelo astrônomo inglês Percy Seymour no seu Astrology: the evidence of science, Lennard Publishing, 1988.
Não conclua, no entanto, a partir do que digo, que outros não se interessaram pelo assunto. Gente tão qualificada quanto eles, como Plotino, Platão, Jacob Boheme e Bachelard também expuseram suas teorias.
Por outro lado, adianto-lhe logo que a resposta definitiva sobre esse problema ainda está em aberto. A astrologia, no estado em que atualmente se encontra, não possui nenhuma teoria geral explicativa suficiente, mas várias hipóteses a discutir, inclusive as que o senhor sugere e poderia talvez desenvolver. Essa situação não deve ser vista como caso para espantos, mas como oportunidade de atentar para o tamanho do problema, pois o objeto material da astrologia é de trato complicado, em sendo ele nada mais nada menos do que um ente lógico: uma relação. Afinal de contas, o que a astrologia pretende estudar é a relação entre os fenômenos celestes e os terrestres de qualquer ordem.
Entenda então que vou responder à sua pergunta, antes com um resumo das principais hipóteses levantadas sobre o assunto, do que com respostas acabadas que não tenho.
Assim, conto-lhe que as teorias concebidas para explicar o fenômeno podem se classificar quase todas em dois grandes principais tipos: o das teorias causais e o das teorias harmônicas. Listo-as em seguida, para o senhor, junto com as referências bibliográficas.
1- AS TEORIAS CAUSAIS
Essas teorias supõem a existência de um nexo causal, que pelo menos parcialmente, determinaria o fenômeno astrológico e admitem que as posições celestes são a causa dos eventos terrestres. A expressão fundamental da teoria causal é aquela dada por Santo Tomás de Aquino e se destaca por estabelecer o caráter físico da influência astral e enfocar a questão desde o ponto de vista da causa formal sem determinar a causa eficiente. Deste modo, ele estuda os movimentos astrais como modelos dos movimentos dos entes terrestres, num nível conceitual e lógico, sem entrar no campo da investigação empírica. Resumindo, Santo Tomás sugere que um corpo só pode exercer influência causal sobre o que seja também corpo. Como conseqüência, está excluída a hipótese de que os astros exerçam qualquer influência direta sobre a psique e o comportamento humanos. Ele afirma que os movimentos planetários não influenciam a inteligência e a vontade dos homens, mas atuam somente sobre os corpos, onde predispõem distúrbios (alterações fisiológicas) que podem obstar, por ação indireta, a livre operação das faculdades psíquicas do homem. O senhor, que, sem dúvida, é um estudioso atento às conseqüências, já deve ter observado a importância dos raciocínios do santo. Eles tornam possível a investigação científica do problema astrológico, na medida em que o retira da jurisdição dos argumentos metafísicos ou teológicos sobre determinismo e livre-arbítrio. (É exatamente essa a postura do texto Navegação animal e as interferências cósmicas de Carlos Fini, publicado nesta revista e que recomendo-lhe a leitura).
Existem outras versões dessa teoria que seguem a mesma linha causal privilegiando as causas eficientes. Peço que siga-me, com atenção, no exame de algumas delas.
a) Teoria gravitacional - que atribui a ação dos astros às suas forças de atração gravitacional e contra a qual existem graves objeções da física atual. Além do que, pelo menos no âmbito da carta astrológica calculada para um indivíduo humano, onde se leva em conta para a análise do caráter apenas as "posições" dos astros, é evidente que as explicações de ordem gravitacional estão fora de qualquer cogitação. Do mesmo modo, as explicações apoiadas no magnetismo foram abandonadas desde os anos 50.
b) Teoria da ressonância magnética de Seymour - A teoria do Dr. Seymour baseia-se nas propriedades magnéticas bem definidas da Terra, da Lua e dos planetas, e na capacidade, não menos estabelecida, da vida orgânica reagir a estímulos magnéticos através do sistema nervoso. Extremamente culto, ele reúne conhecimentos que vão desde a genética até as teorias mais modernas sobre a ressonância magnética.
Para uma compreensão mais profunda dessa teoria recomendo ao senhor a leitura do livro dele citado no início deste escrito. Em todo caso resumo e adianto-lhe uma analogia, que o Dr. Seymour mesmo propõe, para facilitar a compreensão dessa teoria. Ele compara o sistema solar a um enorme transmissor de música cósmica. Os planetas, o Sol e a Lua são suas estações transmissoras, cada uma emitindo sinais em determinada freqüência. A música é
recebida e amplificada pela magnetosfera terrestre, e os seres humanos a captam por meio de antenas individuais - "pré-ajustadas astrologicamente pela genética e pelo nascimento para responder mais intensamente a certas estações do que a outras".
O argumento da ressonância entre as partes integrantes do todo representado pelo sistema solar ou, precisando melhor, pelo universo inteiro, tem sido a base de todas as teorias apresentadas ultimamente pelos cientistas conscientes e dispostos a analisar a sério a questão astrológica.
c) Teoria da simpatia - afirma a influência energética dos astros sobre os minerais e particularmente sobre os metais, ao mesmo tempo em que se apoia em justificativas extraídas da teoria harmônica. Ela toma como base as experiências de Madame Eugénie Kolisko, assistente de Rudolf Steiner, publicadas no livro Moon and the growing of plants, editado em 1939 pela Antroposophical Publishing House.
O senhor, sem dúvida conhece a teoria astrológica dos aspectos, definidos como distâncias angulares significativas entre dois astros, (planetas, por exemplo), ou entre um astro e um ponto. Kolisko observou que no momento de um aspecto astrológico entre dois planetas aconteciam, simultaneamente, alterações no comportamento químico dos metais. Mas, não de metais quaisquer, e sim daqueles que a tradição astrológica associava (e associa ainda) aos planetas envolvidos. Por exemplo, as experiências feitas com reações entre soluções de sulfato de ferro e nitrato de prata, nas épocas dos aspectos entre Marte e Lua, mostraram um aumento da velocidade dessas reações sempre que esses astros se aproximavam um do outro. A mesma experiência apresentou resultado semelhante quando realizada com a prata correspondente à Lua e o chumbo a Saturno, pois também comportou-se quimicamente segundo o ritmo angular desses dois astros.
2- AS TEORIAS HARMÔNICAS
Supõem harmonia, homologia ou concomitância entre os fatos celestes e os terrestres. Aqui os astros não são as causas. A mais importante expressão dessa teoria foi aquela dada por Plotino, que afirmava a interdependência universal como lei cósmica objetiva. Peço-lhe agora que me siga e faça pequena pausa para ler a nota de pé de página, que não pude deixar de incluir, onde transcrevo a idéia de Plotino, contida no terceiro tratado da Eneada Segunda, texto original compilado por Porfírio, seu principal discípulo. Vale a pena. 1
Percebeu o senhor a sutileza da explicação de Plotino e os pressupostos metafísicos nela contidos? Ele parte da idéia do universo como um todo vivente, único, autoconsciente e estabelece ligações e correspondências entre todos os níveis da manifestação universal e de seus fenômenos, usando para tanto as leis de analogia que fundamentam o simbolismo universal. Esta teoria, que se mantém na categoria das correspondências universais não invalida nem exclui a teoria causal de Santo Tomás, mas antes a complementa.
Na primeira vemos ser privilegiada uma visão propriamente temporal, que coerentemente quer saber qual a origem do fenômeno. Nesta linha temos Aristóteles e Sto. Tomás de Aquino. Não é descabido pensar numa influência do pensar judaico que, de estrutura histórico causal, concebe um cosmos que se desenvolve no tempo e se interessa por sua origem temporal.
Complementariamente, na segunda teoria a visão é espacial e de sabor grego. Nessa linha temos o hermetismo, o pitagorismo, Platão, Plotino, Márcio Ficino e os pensadores árabes. O cosmo é visto como um imenso organismo vivente com suas partes interagindo em harmonia. Como se cada ato perpetrado aqui se repercutisse correspondentemente além, sendo irrelevante a causa. O interesse aqui se foca sobre a essência permanente. Esta teoria da harmonia universal produziu inúmeros filhotes.
Faço, para o senhor, rol daquelas de maior relevo.
a) Teoria da ação recíproca - considera insuficiente a explicação dos movimentos astrais como causas e afirma a necessidade de sua complementação pelos atos humanos, através de uma cronologia dos atos sociais e dos ritos regulados harmoniosamente com os movimentos celestes, de tal modo que se torna possível uma reorientação das forças cósmicas. Teoria aceita e descrita pela cultura chinesa. Para aprofundar leia principalmente La Pensée Chinoise de Marcel Granet. Aproveito para compartilhar aqui com o senhor minha crença de que, em certa medida, as festas do santoral cristão, foram estabelecidas sob a inspiração de idéias muito parecidas. Sobre isso, recomendo-lhe leia o artigo Máscaras, Ovos e Fogo que escrevi sobre o assunto.
b) Teoria estruturalista - sustenta que existe uma homologia estrutural entre a visão humana completa do céu e a estrutura total da cultura, assim por extensão, da psique individual. Daí pode inferir o senhor que por causa dessa homologia é possível a explicação astrológica de determinados atos e situações humanas. Esta é a posição da cosmologia simbólica de Bachelard. Recomendo-lhe ver os estudos deste autor sobre os quatro elementos e La poétique de la rêverie. Dentre os astrólogos, André Barbault subscreve essa visão projetiva do fenômeno astrológico.
Para finalizar, não poderia deixar de referir as duas versões principais da Teoria do Sincronismo:
a) Teoria dos ciclos - afirma a possibilidade da comparação entre os ciclos e os ritmos existentes em toda natureza e os ciclos próprios do homem e desenvolve as previsões correspondentes.
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A teoria da sincornicidade de Carl
Jung também é explicação
para o fenômeno astrológico
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Esta teoria defendida por Michel Gauquelin e pelos cosmobiologistas (ver Les horloges cosmiques) tem hoje muitas aplicações na medicina.
b) Teoria da sincronicidade de Jung - a base é o conceito de sincronicidade definido por
Carl Jung como sendo uma coincidência temporal não-causal, passível de uma interpretação simbólica e capaz de indicar o estado psíquico do indivíduo.
Parece-me que esse resumo das opções explicativas para o fenômeno astrológico, que envio como resposta ao senhor, mostram que gente da maior qualidade na cultura ocidental tem se ocupado seriamente com o problema astrológico. Mesmo que o esforço intelectual de tantas mentes geniais não tenha produzido ainda uma resposta conclusiva, pelo menos, já podemos enxergar claramente que a astrologia não é passatempo de crianças, nem sucedâneo místico para a classe média espiritualmente desorientada.
Finalizando, solicito os reparos que ache seja eu digno de receber do senhor, meu parceiro, de agora em frente, no amor à ciência e à astrologia.
Nota:
1 - "Se os astros - tal como se diz também de muitas outras coisas - anunciam o futuro, que explicação podemos oferecer para a causa desse fenômeno? Que é que explica o arranjo propositado e significativo (dos astros) que está implicado neste fato? Obviamente, não pode haver significação a não ser que o particular esteja incluído em algum princípio geral.
Podemos pensar os astros como letras perpetuamente inscritas no céu, que no entanto se movem à medida que desempenham as demais tarefas que lhes foram adscritas. Dessas tarefas principais segue-se a sua qualidade de significantes, do mesmo modo que o princípio único subjacente a todas as unidades vivas nos permite raciocinar sobre uma delas a partir de outra, de modo que, por exemplo, podemos julgar do caráter e mesmo dos perigos e defesas do organismo através de indicações que encontramos nos olhos ou em outra parte do corpo. Se essas partes de nós são membros de um todo, nós também o somos; por diferentes modos, é a mesma lei única que se aplica nos dois casos.
Tudo manifesta símbolos; o sábio é aquele que em qualquer coisa pode ler outra, processo que é familiar a todos nós em não raros campos da experiência cotidiana.
Mas, qual é o princípio abrangente de coordenação? Estabeleçam isso e teremos uma base racional para a adivinhação, não somente aquela que fazemos através das estrelas, mas através dos pássaros ou outros animais, e da qual extraímos orientação para nossos variados misteres.
Todas as coisas têm de estar encadeadas. E a simpatia e correspondência (entre partes) existente em qualquer organismo estreitamente coeso deve existir primeiro, e muito mais intensamente, no Todo. Tem de haver um princípio que constitua a unidade de e entre as muitas formas de vida, e que inclua os vários membros dentro da unidade, enquanto, ao mesmo tempo, precisamente tal como em cada detalhe as partes também têm cada uma sua função definida, assim também no Todo cada um dos membros deve ter sua própria tarefa - porém muito mais marcadamente neste caso (dos astros), desde que neste caso as partes não são apenas membros, mas elas mesmas são Todos, membros da mais alta espécie.
Assim, cada entidade tem sua origem num Princípio e, portanto, enquanto executa sua própria função, trabalha com todos os membros desse Todo, do qual sua distinta tarefa específica não foi de modo algum separada; cada uma desempenha seu ato, cada uma recebe algo das outras, cada uma tem seu próprio momento de trazer seu toque doce ou amargo. E não há nada intencionado, nada ao acaso, em todo o processo: tudo é um esquema de diferenciação, que começa nos Primeiros e, se desdobra numa contínua progressão de Espécies.
Cid de Oliveira é astrólogo.




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