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A Feiticeira do H é o Carma
O Carma com "C"
Cid de Oliveira
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Astrólogo
Hoje a palavra carma tem múltiplos usos. Tenho uma coleção de exemplos. Outro dia estava num ônibus quando uma garota, que estava sentada na minha frente, levantou-se de repente, e quase gritando pediu ao motorista para descer, enquanto o namorado perplexo lhe perguntava porque ela estava acabando o namoro daquele jeito. A resposta imediata e definitiva da mocinha foi: - Porque você é um carma. Já testemunhei também, o uso dessa palavrinha com o sentido contrário quando ouví de um rapaz a razão porque continuava vivendo com uma mulher que o humilhava e traía: -Relação fatal, cara. Ela é meu carma.
Não sei, se por causa dessas e outras, estou vendo carma por todo lado. Mas, por incrível que pareça, para mim é líquido e certo que as características do carma (com c), que esbocei antes se aplicam ipsis litteris à feiticeira do H. Afinal, como o carma ela também, diz-se, vem do oriente, e como ele também comprova seu pedigree quando exibe sua tenda, os turbantes de seus assistentes, um e outros véus; e mais ainda, quando se propõe a oferecer os mesmos prazeres das huris, descritas no Alcorão. No entanto, isso não é suficiente para esconder (nem a produção do programa pretende) o carregado sotaque paulistano da menina, uma suposta dança do ventre com coreografia baiana e que, exatamente ao contrário das dançarinas árabes, é com os glúteos, bem brasileiros, que ela exerce um controle sobre a mente e a vontade de seus admiradores.
De modo igualzinho, o carma que se instalou na cabeça da maioria do distinto e espiritual público é tão indiano quanto a feiticeira do H é arábica. No fundo, não passa tudo de um "negócio das Arábias". E é no mundo dos negócios mesmo que se encontra outra das muitas semelhanças entre o programa da feiticeira e o carma new age. O show da feiticeira se estrutura sobre as leis do mercado: vamos aplicar tanto, vamos ganhar um quanto e a diferença, o lucro é o que interessa. E mais o índice do Ibope, é claro. Enquanto isso o povão hipnotizado bate palmas para o pouco de alívio e divertimento que se lhes concede. Pois, não é esse mesmo espírito que preside tanto o uso quanto a concepção comum de carma?
"Nós espiritualistas acreditamos que estamos todos aqui para pagar o carma de outras vidas. À medida que vamos acumulando um saldo positivo de boas ações podemos evoluir espiritualmente até encontrar Mestre Jesus(sic). E isso só se consegue resgatando nossas dívidas cármicas", afirma o guru Nadharanda.(5)

Blavatsky e Kardec: os "ricardões da evolução mística
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Esse mistifório é uma perfeita amostra de até onde pode chegar a deturpação sofrida por um conceito metafísico oriental, ao ser ele enfiado nos moldes estreitos de compreensão da mente material-contabilista do ocidente, que entende tudo sob as categorias de pagamento, saldo dever, haver, dívida. O que o espiritual guru esqueceu, ou muito provavelmente nem sabe, é que a idéia de evolução espiritual das almas desencarnadas subindo degraus cósmicos é filha bastarda do evolucionismo biológico e materialista de Darwin. Os ricardões foram Alan Kardec e a Madame Blavastiki que deram um sentido místico à palavra evolução, aplicando-a a uma pretensa vida espiritual. O que também, sem dúvida, desconhece o luminoso guru é que, quase ao mesmo tempo, a teoria de "sobrevivência do mais apto", do mesmíssimo senhor Darwin, foi transplantada por Hebert Spencer para as ciências sociais, como um princípio sociológico, que foi se transformando depois, até tornar-se em argumento ideológico para justificar, a posteriori, a concorrência capitalista. Esses dois desenvolvimentos da teoria evolucionista de Darwin, junto com os questionamentos dos socialistas, do princípio do século, sobre as desigualdades sociais conformaram a idéia de carma surgida no ocidente e em vigência até hoje.
Mesmo o mais embotado dos cérebros, depois de conhecer essas raízes da evolução cármica, pode compreender agora o porque do uso das palavras evolução, pagamento, saldo positivo e resgate da dívida num argumento que se pretende espiritualista. Tenho forte esperança que o senhor Nadharanda, se, por acaso, ler essas mal traçadas linhas, compreenda também e possa, pelo menos, seguir o exemplo de sinceridade de Madonna, que se confessa "a material girl", e se declare coerentemente "a material guru".
A única diferença que vejo entre a feiticeira do H e o carma é que o público da farsa televisiva não leva a sério a encenação armada para manipular a fantasia dos marmanjos; enquanto que o pessoal esotérico leva a sério, de modo comovente, os devaneios cármicos ensinados e aplicados por aí para mantê-los além da imaginação, sem consciência dos males a que estão sujeitos.
Qualquer doutrina que misture, de modo antinatural e irresponsável, conceitos de uma tradição com os de uma outra expõe seus adeptos a sérios perigos. É impossível, portanto, ser um híbrido de cristão e hinduísta sem arriscar, de algum modo, a inteireza da personalidade.
Um dos males da pregação cármica é que ela introjeta nos seus partidários uma incapacidade total de discernir a diferença entre reconhecer os próprios erros e aceitar a realidade em torno; e essa situação produz um estado psíquico que facilita enormemente o controle da mente e da vontade deles.
Ora, a astrologia cármica, um dos subprodutos da ideologia da nova era, é um desenvolvimento secundário dessas idéias. Ela se compõe, precisamente, do amálgama disparatado dos conceitos já deturpados do carma e samsara hindus com teorias ocultistas ocidentais sobre outras vidas - absorvidas sem exame por certos astrólogos - e somados às técnicas da astrologia ocidental. Como conseqüência faz parte da astrologia cármica a crença numa evolução espiritual através de reencarnações, e seus seguidores acreditam que a carta natal concebida nos moldes ocidentais contém informações sobre as vidas passadas do indivíduo e afirmam, ainda, a capacidade que têm seus praticantes de decifrar essas informações para o cliente e aconselhá-lo a respeito do sentido último de suas vidas. Como prova disso, assim falou Richard Brown:
"Enquanto a astrologia convencional se preocupa em usar a carta natal para fazer um esboço da personalidade da pessoa, na astrologia cármica nós assumimos que os indivíduos já a conhecem bastante bem. Assim, nós enfocamos a carta astrológica, não em termos da personalidade, mas em termos espirituais. A carta natal é realmente um registro contábil espiritual. Ela mostra créditos e débitos, contas a pagar e contas a receber de encarnações anteriores" .... "A astrologia cármica responde à pergunta "por que?" A resposta a essa pergunta "por que?" se fundamenta naquilo que trouxemos de outras vidas para esta vida. A astrologia cármica assume que você já sabe que tipo de pessoa você é, mas que agora está questionando como isso aconteceu, e o que fazer dessa situação". (6)
Essa interpretação, finalista e cármica do horóscopo, que considero abusiva, fundamenta a pretensão que têm os astrólogos, como Mr. Brown, de serem capazes de revelar aos seus clientes o "por que?" último e cósmico de suas vidas. Como se admite que o cliente já se conhece, estão excluídas as explicações internas. Sobram as explicações externas das ações passadas, obtidas através da decifração cármica do recado dos astros. (7)
Aliás, um dos motivos do interesse, de certos indivíduos, pela astrologia cármica é justamente o desejo de encontrar uma explicação externa para seus atos, de modo que possam livrar-se da consciência de culpa individual e de suas conseqüências, através da transferência de suas responsabilidades para os astros ou para uma outra vida.
Dentro da ideologia religiosa e progressista propagandeada pela nova era, o "viver sem culpas" é um dos engodos oferecidos à humanidade. O sentimento de culpa é amplamente condenado pela maioria das pseudoreligiões da moda, como um resíduo careta de tradições repressivas e sem nenhuma função na nova era aquariana de progresso, liberdade e realização da consciência cósmica. O sucesso da astrologia cármica se deve, em larga medida, ao fato de que ela oferece, implicitamente, uma possibilidade de viver sem culpas. Viver sem culpas, neste caso, é conseguido simplesmente pela destruição da idéia mesma de culpa, através da aplicação de um amálgama incoerente feito de uma forma ambígua de astrologia e de conceitos mal compreendidos das tradições orientais, manipulados a partir de uma perspectiva cristã. Tanto a causa quanto a responsabilidade pelos infortúnios do indivíduo são transferidas para bem longe dele: espacialmente para os astros e temporalmente para uma outra vida.
A conseqüência pavorosa disso tudo é que na tentativa de exterminar a consciência de culpa se destrói junto com ela a única solução, universalmente recomendada, para essa questão. Tanto os rituais purificatórios das tradições orientais, quanto as lições claríssimas do simbolismo contido nos mitos dos heróis gregos, como o rito cristão recomendam o uso da consciência de culpa como veículo para o exame corajoso dos próprios atos, para o reconhecimento dos erros cometidos, para o arrependimento, para a promessa de tentar não repetir os mesmo erros e finalmente para a reparação.
Mas, apesar de todas as contorções mentais que oferece a astrologia cármica para suprimir a idéia de culpa, o sujeito continua a senti-la. Presa da angústia e do remorso sente-se vítima dos astros, da fatalidade ou dos deuses, como se fora um desgraçado herói trágico. Incapaz de reconhecer sua responsabilidade pessoal e de arrepender-se tem sua vontade enfraquecida e se submete facilmente ao poder de qualquer um outro que lhe ofereça uma explicação capaz de abafar os reclamos de sua consciência, por mais inverossímil e impossível de verificar que seja. (8) E como num ciclo vicioso ela é oferecida pelo astrólogo cármico de plantão.
As explicações fatalistas da astrologia cármica associadas à presunção (falsa) de que a carta astrológica é capaz de fornecer informações sobre as vidas passadas são extremamente eficazes para escamotear a responsabilidade pessoal do indivíduo por seus erros. Como se baseiam largamente em descrições de outras vidas, têm um forte apelo imaginativo que sugestiona o cliente. Além disso, o freguês não tem como comprovar a veracidade das descrições de suas encarnações passadas. Assim, só lhe resta, com muita fé, se entregar completamente nas mãos do astrólogo. A influência do astrólogo sobre o cliente, que se expõe a tal situação, é propriamente anti-humana, pois provoca a anulação da vontade, a faculdade que o marca exatamente com sua humanidade, que se expressa de modo pleno no ato livre e responsável, a única coisa capaz de livrá-lo de seus problemas.
Espero que todos envolvidos com esse tipo de prática, examinem de modo isento, honesto e inteligente as informações e questões aqui levantadas. Quanto aos astrólogos, na medida em que são orientadores e formadores de opinião, fazer uma observação de suas próprias consciência é condição essencial para a investigação de suas responsabilidades no uso dessa mistura de crenças religiosas com carta natal, que, sem dúvida, prejudica o indivíduo, a astrologia e a religião.



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O Karma
Conheça a verdadeira origem desta lei e as deturpações na interpretação do seu significado.
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