Porto do Céu - Astrologia Signos:
 
   



A Feiticeira do H é o Carma
Cid de Oliveira - Astrólogo

Dante e Virgílio no Inferno, de E. Delacroix
Shiva Bhairava - Índia

É indiscutível que a lei do karma, tal como explicitada nos textos sagrados hindus, se relaciona com os ritmos celestes e, portanto, com as configurações planetárias estudadas pela astrologia. Tanto que, a astrologia na sua forma hinduísta e tibetana é exercida tendo como pano de fundo exatamente a lei do karma. O que é perfeitamente coerente, no âmbito dessas tradições orientais, pois essa lei se insere, harmoniosa e integralmente, no conjunto de outras concepções - como as de dharma, samsara, varna, etc.- que fazem parte da cosmovisão daqueles povos.

Indo direto ao assunto, lembro que o conceito de karma tem três acepções principais no oriente (1).

1- Karma é a ação primeira e original que dá origem à manifestação; é o arquétipo de todas as ações posteriores. Esse primeiro ato é a ação sacrificial de Purusha, o princípio ativo da manifestação, a partir da qual o mundo surge. Esta concepção acarreta que, tanto a manifestação cósmica como um todo, quanto o homem são em última instância karma. São ambos, no fundo, um conjunto complexo de ações e reações; de relações, portanto. Por isso, o Mundo e sua condição atual surgem como resultado de todas as ações e reações passadas.

2- Karma é a estrutura sutil da realidade temporal; é o que continua quando a aparência imediata dos elementos se dissolve ou é transformada. É o núcleo da pessoa que permanece e por isso transcendente a toda individualidade. É aquilo que todos os seres existentes têm em comum. A mensagem dos Upanishads acentua esse aspecto do karma, que também está subjacente em outra escolas como Yoga ou o Budismo (2), por exemplo.

3- Karma é karmamarga, isto é, uma via da ação correta, dos bons atos; um caminho para a liberação e realização da humanidade. A ação é inevitável e só não provocará obstáculos se realizada de modo correto e com um espírito correto. É exigido aqui um desapego dos frutos futuros da ação no momento mesmo de sua realização; e não uma negação ou desapego da ação ou dos atos. O Bhagavad Gita é o melhor exemplo dessa atitude.(3)

Dessas três visões a que nos interessa inicialmente é a primeira, que afirma ser o karma o conjunto das condições objetivas da circunstância, do Mundo, e que surge da totalidade de todas as ações passadas ¾ nossas, de nossos ancestrais, do meio social, etc. Assim, assumir o karma é simplesmente aceitar de modo inteligente a realidade em seu conjunto, ou seja, o estado atual de existência.

O problema é que um ocidental, criado num ambiente judaico-cristão, e naturalmente propenso, portanto, a enxergar as coisas desde seu particular ponto de vista, acaba por compreender a noção de karma segundo o critério de responsabilidade individual perante a um Deus criador, que é parte verdadeira do conjunto doutrinal de suas crenças, mas que não se harmoniza, de jeito nenhum, nem com o conceito verdadeiro de karma, nem com as outras doutrinas a ele associadas e muito menos com as suas conseqüências.

Quando um hindu ou um budista exercita a identificação consciente com o próprio karma, compreendido como um amplo tecido de ações e reações que em larga medida o transcendem, ele aceita as condições da existência tais como são e coloca-se numa posição totalmente diferente da postura tipicamente cristã de responsabilidade pessoal frente ao julgamento de um Ser superior.

Buda
Por outro lado, para o cristão o que realmente conta são os erros cometidos de modo consciente e voluntário, deixando-se de lado os erros praticados por automatismo, os erros dos outros seres e todas as ações forçadas pelas circunstâncias, segundo o exposto na doutrina dos pecados mortal e venial. Resumindo, no cristianismo não se leva em consideração, exatamente, quase tudo o que forma o karma para doutrinas hinduístas e budistas.

Apesar dessas diferenças gritantes, a mescla artificial do ponto vista religioso e sentimental cristão, de responsabilidade pessoal frente a um Deus criador, com a visão intelectual hinduísta do karma já distorcida pelo ponto de vista "ocultista" - que surgiu no ocidente no princípio deste século - se disseminou a tal ponto que faz parte hoje das crenças indiscutíveis das ideologias da nova era. Fabricou-se assim umcarma, ao gosto ocidental e moderno, vestido de adereços e atavios para lembrar o oriente, mas completamente diferente e até mesmo antagônico ao conceito hinduísta original de karma. E karman (4) virou carma. E, com uma força tão grande quanto seu coeficiente de ilusão, instalou-se na língua, nos usos e costumes.


O Carma com "C"

Hoje a palavra carma tem múltiplos usos. Tenho uma coleção de exemplos. Outro dia estava num ônibus quando uma garota, que estava sentada na minha frente, levantou-se de repente, e quase gritando pediu ao motorista para descer, enquanto o namorado perplexo lhe perguntava porque ela estava acabando o namoro daquele jeito. A resposta imediata e definitiva da mocinha foi: - Porque você é um carma. Já testemunhei também, o uso dessa palavrinha com o sentido contrário quando ouví de um rapaz a razão porque continuava vivendo com uma mulher que o humilhava e traía: -Relação fatal, cara. Ela é meu carma.

Não sei, se por causa dessas e outras, estou vendo carma por todo lado. Mas, por incrível que pareça, para mim é líquido e certo que as características do carma (com c), que esbocei antes se aplicam ipsis litteris à feiticeira do H. Afinal, como o carma ela também, diz-se, vem do oriente, e como ele também comprova seu pedigree quando exibe sua tenda, os turbantes de seus assistentes, um e outros véus; e mais ainda, quando se propõe a oferecer os mesmos prazeres das huris, descritas no Alcorão. No entanto, isso não é suficiente para esconder (nem a produção do programa pretende) o carregado sotaque paulistano da menina, uma suposta dança do ventre com coreografia baiana e que, exatamente ao contrário das dançarinas árabes, é com os glúteos, bem brasileiros, que ela exerce um controle sobre a mente e a vontade de seus admiradores.

De modo igualzinho, o carma que se instalou na cabeça da maioria do distinto e espiritual público é tão indiano quanto a feiticeira do H é arábica. No fundo, não passa tudo de um "negócio das Arábias". E é no mundo dos negócios mesmo que se encontra outra das muitas semelhanças entre o programa da feiticeira e o carma new age. O show da feiticeira se estrutura sobre as leis do mercado: vamos aplicar tanto, vamos ganhar um quanto e a diferença, o lucro é o que interessa. E mais o índice do Ibope, é claro. Enquanto isso o povão hipnotizado bate palmas para o pouco de alívio e divertimento que se lhes concede. Pois, não é esse mesmo espírito que preside tanto o uso quanto a concepção comum de carma?

"Nós espiritualistas acreditamos que estamos todos aqui para pagar o carma de outras vidas. À medida que vamos acumulando um saldo positivo de boas ações podemos evoluir espiritualmente até encontrar Mestre Jesus(sic). E isso só se consegue resgatando nossas dívidas cármicas", afirma o guru Nadharanda.(5)

Blavatsky e Kardec: os "ricardões da evolução mística

Esse mistifório é uma perfeita amostra de até onde pode chegar a deturpação sofrida por um conceito metafísico oriental, ao ser ele enfiado nos moldes estreitos de compreensão da mente material-contabilista do ocidente, que entende tudo sob as categorias de pagamento, saldo dever, haver, dívida. O que o espiritual guru esqueceu, ou muito provavelmente nem sabe, é que a idéia de evolução espiritual das almas desencarnadas subindo degraus cósmicos é filha bastarda do evolucionismo biológico e materialista de Darwin. Os ricardões foram Alan Kardec e a Madame Blavastiki que deram um sentido místico à palavra evolução, aplicando-a a uma pretensa vida espiritual. O que também, sem dúvida, desconhece o luminoso guru é que, quase ao mesmo tempo, a teoria de "sobrevivência do mais apto", do mesmíssimo senhor Darwin, foi transplantada por Hebert Spencer para as ciências sociais, como um princípio sociológico, que foi se transformando depois, até tornar-se em argumento ideológico para justificar, a posteriori, a concorrência capitalista. Esses dois desenvolvimentos da teoria evolucionista de Darwin, junto com os questionamentos dos socialistas, do princípio do século, sobre as desigualdades sociais conformaram a idéia de carma surgida no ocidente e em vigência até hoje.

Mesmo o mais embotado dos cérebros, depois de conhecer essas raízes da evolução cármica, pode compreender agora o porque do uso das palavras evolução, pagamento, saldo positivo e resgate da dívida num argumento que se pretende espiritualista. Tenho forte esperança que o senhor Nadharanda, se, por acaso, ler essas mal traçadas linhas, compreenda também e possa, pelo menos, seguir o exemplo de sinceridade de Madonna, que se confessa "a material girl", e se declare coerentemente "a material guru".

A única diferença que vejo entre a feiticeira do H e o carma é que o público da farsa televisiva não leva a sério a encenação armada para manipular a fantasia dos marmanjos; enquanto que o pessoal esotérico leva a sério, de modo comovente, os devaneios cármicos ensinados e aplicados por aí para mantê-los além da imaginação, sem consciência dos males a que estão sujeitos.

Qualquer doutrina que misture, de modo antinatural e irresponsável, conceitos de uma tradição com os de uma outra expõe seus adeptos a sérios perigos. É impossível, portanto, ser um híbrido de cristão e hinduísta sem arriscar, de algum modo, a inteireza da personalidade.

Um dos males da pregação cármica é que ela introjeta nos seus partidários uma incapacidade total de discernir a diferença entre reconhecer os próprios erros e aceitar a realidade em torno; e essa situação produz um estado psíquico que facilita enormemente o controle da mente e da vontade deles.

Ora, a astrologia cármica, um dos subprodutos da ideologia da nova era, é um desenvolvimento secundário dessas idéias. Ela se compõe, precisamente, do amálgama disparatado dos conceitos já deturpados do carma e samsara hindus com teorias ocultistas ocidentais sobre outras vidas - absorvidas sem exame por certos astrólogos - e somados às técnicas da astrologia ocidental. Como conseqüência faz parte da astrologia cármica a crença numa evolução espiritual através de reencarnações, e seus seguidores acreditam que a carta natal concebida nos moldes ocidentais contém informações sobre as vidas passadas do indivíduo e afirmam, ainda, a capacidade que têm seus praticantes de decifrar essas informações para o cliente e aconselhá-lo a respeito do sentido último de suas vidas. Como prova disso, assim falou Richard Brown:

"Enquanto a astrologia convencional se preocupa em usar a carta natal para fazer um esboço da personalidade da pessoa, na astrologia cármica nós assumimos que os indivíduos já a conhecem bastante bem. Assim, nós enfocamos a carta astrológica, não em termos da personalidade, mas em termos espirituais. A carta natal é realmente um registro contábil espiritual. Ela mostra créditos e débitos, contas a pagar e contas a receber de encarnações anteriores" .... "A astrologia cármica responde à pergunta "por que?" A resposta a essa pergunta "por que?" se fundamenta naquilo que trouxemos de outras vidas para esta vida. A astrologia cármica assume que você já sabe que tipo de pessoa você é, mas que agora está questionando como isso aconteceu, e o que fazer dessa situação". (6)


Essa interpretação, finalista e cármica do horóscopo, que considero abusiva, fundamenta a pretensão que têm os astrólogos, como Mr. Brown, de serem capazes de revelar aos seus clientes o "por que?" último e cósmico de suas vidas. Como se admite que o cliente já se conhece, estão excluídas as explicações internas. Sobram as explicações externas das ações passadas, obtidas através da decifração cármica do recado dos astros. (7)

Aliás, um dos motivos do interesse, de certos indivíduos, pela astrologia cármica é justamente o desejo de encontrar uma explicação externa para seus atos, de modo que possam livrar-se da consciência de culpa individual e de suas conseqüências, através da transferência de suas responsabilidades para os astros ou para uma outra vida.

Dentro da ideologia religiosa e progressista propagandeada pela nova era, o "viver sem culpas" é um dos engodos oferecidos à humanidade. O sentimento de culpa é amplamente condenado pela maioria das pseudoreligiões da moda, como um resíduo careta de tradições repressivas e sem nenhuma função na nova era aquariana de progresso, liberdade e realização da consciência cósmica. O sucesso da astrologia cármica se deve, em larga medida, ao fato de que ela oferece, implicitamente, uma possibilidade de viver sem culpas. Viver sem culpas, neste caso, é conseguido simplesmente pela destruição da idéia mesma de culpa, através da aplicação de um amálgama incoerente feito de uma forma ambígua de astrologia e de conceitos mal compreendidos das tradições orientais, manipulados a partir de uma perspectiva cristã. Tanto a causa quanto a responsabilidade pelos infortúnios do indivíduo são transferidas para bem longe dele: espacialmente para os astros e temporalmente para uma outra vida.

A conseqüência pavorosa disso tudo é que na tentativa de exterminar a consciência de culpa se destrói junto com ela a única solução, universalmente recomendada, para essa questão. Tanto os rituais purificatórios das tradições orientais, quanto as lições claríssimas do simbolismo contido nos mitos dos heróis gregos, como o rito cristão recomendam o uso da consciência de culpa como veículo para o exame corajoso dos próprios atos, para o reconhecimento dos erros cometidos, para o arrependimento, para a promessa de tentar não repetir os mesmo erros e finalmente para a reparação.

Mas, apesar de todas as contorções mentais que oferece a astrologia cármica para suprimir a idéia de culpa, o sujeito continua a senti-la. Presa da angústia e do remorso sente-se vítima dos astros, da fatalidade ou dos deuses, como se fora um desgraçado herói trágico. Incapaz de reconhecer sua responsabilidade pessoal e de arrepender-se tem sua vontade enfraquecida e se submete facilmente ao poder de qualquer um outro que lhe ofereça uma explicação capaz de abafar os reclamos de sua consciência, por mais inverossímil e impossível de verificar que seja. (8) E como num ciclo vicioso ela é oferecida pelo astrólogo cármico de plantão.

As explicações fatalistas da astrologia cármica associadas à presunção (falsa) de que a carta astrológica é capaz de fornecer informações sobre as vidas passadas são extremamente eficazes para escamotear a responsabilidade pessoal do indivíduo por seus erros. Como se baseiam largamente em descrições de outras vidas, têm um forte apelo imaginativo que sugestiona o cliente. Além disso, o freguês não tem como comprovar a veracidade das descrições de suas encarnações passadas. Assim, só lhe resta, com muita fé, se entregar completamente nas mãos do astrólogo. A influência do astrólogo sobre o cliente, que se expõe a tal situação, é propriamente anti-humana, pois provoca a anulação da vontade, a faculdade que o marca exatamente com sua humanidade, que se expressa de modo pleno no ato livre e responsável, a única coisa capaz de livrá-lo de seus problemas.

Espero que todos envolvidos com esse tipo de prática, examinem de modo isento, honesto e inteligente as informações e questões aqui levantadas. Quanto aos astrólogos, na medida em que são orientadores e formadores de opinião, fazer uma observação de suas próprias consciência é condição essencial para a investigação de suas responsabilidades no uso dessa mistura de crenças religiosas com carta natal, que, sem dúvida, prejudica o indivíduo, a astrologia e a religião.


Cid de Oliveira é astrólogo.






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