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As camas de Procrusto
Cid de Oliveira
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Astrólogo
Sujeito mau o tal de Procrusto. Homem vil e infame. Mesmo abjeto. Não o conheci, pois viveu na Grécia, num local deserto à margem da estrada que ia de Mégara para Atenas, no tempo dos heróis.
Mas, imagino o maxilar inferior saltado, os dentes de tubarão, os olhinhos de sangue e a estreita cabeça conforme o pensar reduzido.
Assaltante absolutamente cruel, o criminoso matava suas vítimas de modo peculiar. Depois de
oferecer-lhes hospedagem, ordenava que elas deitassem em uma das duas camas de ferro que possuía.
Se o infeliz ultrapassava o tamanho da cama pequena, ele cortava os pés ou as pernas, em acordo com o tamanho do freguês; ou, então, esticava violentamente aqueles que não preenchiam o
comprimento da cama maior. Ele reduzia qualquer um que passasse na sua porta a um tamanho conveniente à expressão de sua crueldade. Teseu, aquele do Minotauro, o matou com o mesmo método que ele usava para liquidar suas vítimas.
Paul Diel o considera um símbolo perfeito da redução da alma a uma medida convencional. É figuração, muito expressiva, da tirania ética ou intelectual exercida pelas pessoas que não suportam as ações e julgamentos dos outros, senão quando eles se encaixam dentro de seus próprios critérios. É, também, representação do tirano totalitário, quer ela seja um homem, um partido, um regime ou linha de pensamento. No fundo, é o preconceito ignorante e burro. E não é necessário muito esforço para ver que a lição do mito permanece viva e aplicável aos mais diversos campos da vida atual.
Mas, quem diria, meu caríssimo senhor e senhora, que o ensinamento desse mito, tão antigo, poderia um dia ser aplicado também, e muito precisamente, à astrologia?
Para entender isso basta primeiro lembrar que existem dentro dos estudos astrológicos duas correntes marcantes. Uma que pesquisa seus símbolos (como M. Sénard no seu magistral Le Zodiaque, Éditions Traditionnelles) e outra que tem se dedicado aos estudos estatísticos e à pesquisa astrológica de inspiração científica (onde dentre muitas contribuições lembro as de Choisnard e Kraft). Acontece que, mesmo cheios de boas intenções, os seguidores das duas escolas muitas vezes caem num reducionismo de fazer inveja a Procrusto.
Pois bem, no momento, mesmo em que percebemos a astrologia como vítima de Procrusto, identificamos facilmente os dois tipos de leitos nos quais ele insiste em enfiá-la, e que se instalaram, de modo muito evidente, no meio astrológico.
Num deles, estica-se a pobre da astrologia fazendo-a objeto de fé, crença, ou meio capaz de adivinhar o sentido último da vida dos consulentes. O que mais interessa, neste caso, é o aspecto divinatório da astrologia, desvio que sempre se manifesta nas épocas de decadência dela e que foi considerado por todas as culturas, onde ela se desenvolveu de modo são e coerente, como uma aplicação muito inferior e pouco digna de consideração. Para os seguidores dessa corrente, a astrologia é uma ciência oculta, acessível somente aos eleitos e que só pode ser exercida plenamente através de uma espécie de iluminação, inspiração ou "intuição" de ordem mística. Imbuídos desse tipo de mentalidade, determinados astrólogos se travestem de gurus íntimos dos mistérios, e chegam mesmo a acreditar que são os únicos ouvidores e intérpretes qualificados da vontade do Senhor inscrita nos céus. Paradoxalmente, este grupo, apesar de se declarar espiritualista, crê mais em carta astrológica do que em Deus. Existe, neste caso, uma mistura do simbolismo astrológico com a ideologia religiosa e progressista propagandeada pela contra cultura da nova era. A conseqüência é que o distinto e desrespeitável público termina por confundir a sã astrologia com a mixórdia das ciências ocultas e das adivinhações esotéricas da moda. Sem dúvida, essa mistura de carta natal com crenças mal digeridas e práticas espirituais tiradas do seu contexto original, (como as meditações), prejudica não só a astrologia, mas também o indivíduo e a religião. As explicações fatalistas da astrologia cármica, por exemplo, se constituem num exemplo muito evidente do que estou falando.
Nesta passagem, Agostinho influenciado por dois amigos, confessa a Deus seu erro: a prática da
Astrologia. Segundo sua visão, a arte de prever o futuro era falsa, e com ela a Astrologia.
Somente Deus possuiria tal habilidade. A capacidade por exemplo de antever a uma futura doença pela medicina ou qualquer outra arte torna-se difícil de conciliar. Quais os limites do que se pode prever sem o conflito com a sabedoria de Deus?
Peço agora, ao senhor e a senhora, que me acompanhem no exame de uma das causas possíveis para tamanho despautério. Caso comprovado é que o simbolismo da astrologia também serviu, no passado, como suporte de certas técnicas de realização espiritual que permitiam a um indivíduo qualificado - através de um trabalho interior e pessoal - apreender determinados princípios de ordem metafísica. Mas, recordem que essa função da astrologia - ilustrar o significado espiritual dos fenômenos naturais celestes - pressupõe o domínio prévio da astrologia natural. Praticar as possibilidades espirituais da astrologia sem ter adquirido primeiro a capacidade para cumprir essa etapa inicial só pode conduzir à confusão e ao fracasso. No entanto, os astrólogos deste grupo parecem desconhecer esta condição e por isso quando esticam indevidamente o domínio da astrologia, acrescentando a ele um monte de generalizações pseudofilosóficas, pedaços de doutrinas religiosas antigas ou orientais, e mais as crenças confusas do movimento da nova era, - estão apenas compensando as inseguranças do seu conhecimento no campo da astrologia natural.
Apesar disso, não posso deixar de reconhecer, que a grandeza das possibilidades contidas no estudo da astrologia conduz, de modo inevitável e saudável, a especulações que estão além de seu domínio, como por exemplo, o livre arbítrio, a questão do lugar do homem no cosmos ou aquelas relativas ao sentido da vida. É verdade que todos os astrólogos, direta ou indiretamente, cedo ou tarde, terminam por lidar com essas perguntas. Mas, o tamanho e a importância dessas questões não são, de modo algum, uma garantia da competência e da autoridade daqueles que as estuda. E mesmo admitindo que, junto com seu domínio da astrologia, eles possuam um conhecimento profundo desses assuntos, (o que é muito raro no ambiente astrológico), esse saber não vai transformá-los em gurus ou sacerdotes de algum rito cósmico esquisito, ou guias qualificados das almas nas suas supostas vidas passadas ou futuras - como muitos deles se intitulam. Tomados pelo espírito de Procrusto, esses astrólogos não se reconhecem mais como estudiosos da ciência astrológica e praticantes de uma técnica de diagnóstico que se fundamenta em fenômenos naturais. Assim, suas cogitações sobre o sentido da vida valem tanto quanto as das outras pessoas, mesmo que, por força da sua profissão, eles estejam colocados numa posição privilegiada para opinar sobre elas.
Quanto ao uso da outra cama, ele ocorre quando certos grupos complementários dos anteriores tentam, à força, fazer com que a astrologia caiba num leito científico completamente estranho e acanhado para ela. São inúmeros os livros e artigos de revista produzidos a partir dessa premissa e que terminam por sujeitar os ensinamentos do simbolismo astrológico - provenientes, em sua grande maioria, de tradições muito antigas - aos critérios científicos modernos que surgiram fora dessas tradições e na maioria das vezes em completa oposição aos princípios e às premissas cosmológicas admitidas por elas, pois no fundo são expressões de uma mentalidade radicalmente diferente daquela dos povos onde a astrologia começou e se desenvolveu de modo coerente e completo. Tais procedimentos geram falsificações completas da astrologia original e verdadeira, que não é equivalente às ciências experimentais. Essa espécie de mutilação, sem dúvida inspirada por Procrusto, produz uma imitação de ciência muito mal feita, que só banaliza a herança simbólica e mítica da astrologia.
A relação entre o conceito de inconsciente cunhado por Freud ou Jung e as casas astrológicas, aceita sem muito exame pela maioria dos astrólogos, é um dos muitos exemplos dessa postura. Ao aceitarem que a astrologia trata do mesmo aspecto da psique que a psicanálise tratam-na como parte da psicologia e por extensão, muitas vezes como forma de psicoterapia.
Se a astrologia tiver que se constituir em ciência independente tem mais é que se manter em seu próprio campo, estudar seu objeto peculiar com métodos e critérios próprios, e rigorosamente adequados ao seu caráter específico, sem ser espremida artificialmente no leito de outras ciências. A cientificidade desses métodos, os específicos da astrologia, vai se dever então, e somente, a uma fundamentação sólida e à coerência interna de suas premissas e teorias.
Uma das causas dessa segunda violência de Procrusto é, sem dúvida, o esquecimento ou desconhecimento de que a astrologia tem como objeto de estudo as relações entre os fenômenos celestes e os terrestres de qualquer natureza. Ora, uma relação é antes de qualquer coisa um ente lógico que exige, portanto, um método de estudo especial, que não pode ser macaqueação daqueles desenvolvidos por outras ciências. Ainda mais quando, no caso da astrologia, essa relação é muito vasta e complexa, pois acontece entre as posições celestes e o corpo inteiro das ciências existentes.
Assim sendo, quando estabelece uma dessas relações, o astrólogo sempre usa os fenômenos terrestres já determinados, definidos, organizados e classificados por alguma ciência já existente. Como conseqüência desse fato, não existe uma ciência astrológica única, mas uma quantidade enorme de astrologias especiais possíveis, cada uma com seu método peculiar. É evidente que tem de existir uma astrologia geral, puramente teórica, mas só pode haver pesquisa científica no âmbito dessas astrologias especiais. Para tanto, cabe a cada uma das astrologias especiais, (seja ela psicológica, histórica, econômica, médica, política etc.), amoldar a hipótese geral da astrologia ao seu campo específico, ou seja, criar uma hipótese especial; definir os procedimentos e critérios pertinentes a cada caso; realizar as pesquisas necessárias; e, depois de retificar e depurar a hipótese especial, examinar como essas correções afetam a teoria geral.
Por isso, para atingir seu objetivo último, que é a explicação das relações entre os fenômenos celestes e terrestres, a astrologia tem mesmo, sem dúvida, que se apoiar nos dados e contribuições de outras ciências como a história, a psicologia ou a biologia sem que por isso estas últimas adquiram sobre ela qualquer jurisdição, nem que ela tenha, por outro lado, de prestar-lhes quaisquer satisfações quanto ao seu domínio especial.
Por falar em satisfações, é bom que não esqueçamos nós astrólogos e lembrem sempre os senhores astrônomos: que se a sã astrologia não se subordina a qualquer outra ciência, não se sujeita também, e de modo algum, à astronomia. Assim, quando aqueles eruditos senhores emitirem opiniões a respeito da astrologia, que extrapolem os limites de sua autoridade e jurisdição intelectual, podemos responder-lhes firmemente:
- primeiro, que a astronomia só fornece à astrologia uma parte dos dados com os quais ela trabalha;
- segundo, que esses dados tomados isoladamente - sem se estabelecer as comparações com outras ciências - nada significam astrologicamente;
- terceiro, que a razão de ser da astrologia é exatamente o estudo dessas comparações; e que nesse estudo o quinhão da astronomia é um elemento e não princípio organizador, normativo ou explicativo;
- e, finalmente, que por isso tudo, a astrologia, evidentemente, não deve à astronomia nem o seu objeto, nem seus princípios fundamentais, nem os seus métodos de estudo. Assim, como conseqüência, o astrônomo não tem nada que opinar sobre a astrologia, baseado nas premissas de sua ciência e, portanto, a única outra alternativa honesta que lhe resta é estudar astrologia de modo astrológico.
Teseu venceu Procrusto aplicando-lhe o mesmo tratamento que infligia a suas vítimas.
O exemplo de Teseu indica, portanto, ser de bom alvitre parar de imaginar a astrologia como sendo uma fé ou crença transcendente, que deve permanecer alternativa, misturada a anticultura da nova era e intocada à margem do corpo de conhecimentos válidos produzidos pela sociedade em que vivemos, como muitos desejam. Por outro lado, é também saudável desistir de pensar que uma astrologia mal maquiada com os cosméticos da caixa dos acadêmicos das universidades seja uma ciência pronta e acabada para ser aceita por eles.
Resumindo, recorde-se que a astrologia se propõe a resolver o problema das relações entre os corpos celestes e terrestres, suas causas, seu porque, como e quanto. Para fazer isso ela conta primeiro com um conjunto riquíssimo de matrizes míticas, legadas pela antiguidade. Em segundo lugar, a astrologia tem a sua disposição as afirmações e hipóteses propostas por todos os astrólogos antigos e atuais, apresentadas como soluções para o problema colocado pelo objeto da astrologia. Todo esse legado - que constitui a tradição astrológica - contém, sem nenhuma dúvida, antecipações surpreendentes e geniais capazes de fornecer ao estudo da astrologia inspiração e incentivo.
Para findar, narro para o senhor e para a senhora, que me seguiu até aqui, fato marcadamente estranho. É que todos os ataques dos adversários da astrologia se baseiam também e sempre num desses dois preconceitos, que decorrem do desconhecimento do caráter verdadeiro da astrologia espiritual e da natural. Assim, tanto os que se dizem amigos quanto os inimigos da astrologia tentam se deitar com ela nas camas de Procrusto. O que se assiste então é libidinoso espetáculo de deformação generalizada, pois os dois bandos se tornam amigos no engano, e inimigos da verdade.
Assim, meus senhores e minhas senhoras, cumpro o auspicioso dever de informar que a astrologia é muito menos do que aquelas pessoas imaginam e muito mais do que elas pensam.
*Este texto foi o tema da palestra do astrólogo Cid de Oliveira na Jornada "Astrologia, um caminho para a orientação".
Cid de Oliveira é astrólogo.





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