Porto do Céu - Astrologia Signos:
 
   



A consulta Astrológica
Cid de Oliveira - Astrólogo

A consulta astrológica consiste na interpretação e explicação do tema de nascimento que é composto por quatro variáveis: signo, planetas, casas e aspectos. Através da aplicação de regras da interpretação simbólica consagradas pela prática, podemos descrever para o cliente:

a) aspectos de seu caráter relacionados com seu modo particular e único de enxergar a realidade;

b) as variações desses aspectos ao longo do tempo e suas possíveis conseqüências nos mais diversos campos de atuação do indivíduo;

c) ciclos marcantes do seu desenvolvimento psicológico.

A consulta é uma viagem interior muito proveitosa na direção de uma tomada de consciência dos mecanismos internos, que são a base mesma dos comportamentos.

Dentro dela, a interpretação deve ser vista como uma proposta do astrólogo, que será discutida com o cliente, e não uma resposta autoritária, fatal e acabada imposta a ele.

Na sua forma atual, a consulta astrológica, ainda incipiente e imperfeita, é cópia da consulta médica e se compõe de uma descrição do caráter, baseada nas posições dos astros obtida por cálculos astronômicos, unida a um aconselhamento psicoterápico ao qual se junta uma complicada componente oracular. Veja o que significa cada um destes componentes da leitura de um mapa.


O cálculo da carta astrológica:
O quinhão da astronomia


Saber montar uma carta astrológica, compreender as posições dos planetas, usar uma escritura particular para desenhar os sinais dos signos e dos astros, são ações iniciais que fundamentam e impregnam a relação do cliente com o astrólogo. A pequena bagagem astronômica necessária ao ofício da astrologia confere ao astrólogo uma certa legitimidade aos olhos do leigo, pois lhe dá um verniz de sabedoria científica. O astrólogo passa, assim, para o distinto público uma imagem de conhecedor da astronomia, raramente justificada na realidade. Essa é a primeira das muitas ambigüidades da profissão. O trabalho astrológico veste uma máscara científica por causa de um saber que é pouco, quando existe, e que não é de ordem astrológica, mas do âmbito de outra ciência, a astronomia. A carta astrológica é, sem dúvida, o emblema, a insígnia do astrólogo, mas é preciso estar atento para que grande parte da autoridade e credibilidade social que esta insígnia lhe empresta (de graça) vêm de um outro saber já respeitado, reconhecido profissionalmente e integrado no corpo da sociedade. Essa aura difusa de autoridade, emprestada pela astronomia e que envolve o astrólogo, tem um papel fundamental na relação dele com o cliente.

Mas a astronomia não fornece ao astrólogo somente o mapa natal. Ela também o abastece com os meios de se projetar no futuro, pois ela é capaz de dizer antecipadamente, e com grande precisão, onde estarão os planetas em tal ano ou tal dia. A capacidade da astrologia prever está, portanto, intimamente ligada à da astronomia. Por outro lado, não devemos esquecer que ela não está subordinada à astronomia, pois esta lhe oferece apenas parte dos dados com os quais trabalha. Por isso mesmo não é necessário que a cada descoberta astronômica de um novo objeto celeste, nos sintamos coagidos a colocá-lo nas cartas astrológicas.

A astronomia tem, ainda, outra função muito importante na prática da astrologia, pois ela surge, também, como aquilo que diferencia o astrólogo do vidente, do cartomante, do grafólogo ou dos "tiradores da sorte" com o Yi Ching, etc. O cliente do astrólogo não precisa jogar nada, cortar ou escrever coisa alguma; muito pelo contrário, tudo já está colocado de antemão, automaticamente a partir de coordenadas de nascimento que não se escolheu. Esse fato mostra que a clientela do astrólogo é diferente, pois o primeiro elemento que a atrai é exatamente o instrumento de trabalho daquele que vai aconselhá-la. O tema natal é uma figura que impressiona fortemente não só pelo seu aspecto cripto-enigmático, mas também por tudo que ele pressupõe e contem implicitamente.

Sua força de evocação simbólica é extraordinária. Desse modo a relação inicial entre o cliente e o astrólogo é muito desigual. Este último aparece logo, sem muito esforço, como um sábio que detém o poder de decifrar os sinais de um mundo celeste que se pretende mais real que este. A carta natal é uma espécie de estrutura única em seu gênero que, segundo afirmam insistentemente os astrólogos, representa somente um ser; o que só pode encher de satisfação o cliente, que procura o astrólogo, quase sempre, quando está em dificuldade, e que por isso mesmo não está seguro se seu ego tem alguma realidade, mesmo virtual. Ora, o tema, mesmo não interpretado, é a garantia dessa virtualidade. E o simples fato de saber isso já é um grande consolo psíquico. Aqui aparece, claramente, um dos desafios do trabalho clínico do astrólogo. Essas constatações, tanto podem ser manejadas conscientemente junto com uma motivação verdadeira de ajudar o outro, ou podem servir para reforçar a vaidade e o poder de controle do astrólogo sobre o cliente, postura que destrói qualquer efeito positivo da consulta, e pior, pode ter conseqüências danosas ao equilíbrio psíquico do próprio astrólogo. É bom que cada astrólogo saiba disso, e assuma as responsabilidades que derivam daí.


A arte do diagnóstico:
descrição da personalidade do indivíduo


O astrólogo delineia um perfil astrológico do cliente, a partir das posições planetárias do momento de nascimento. O astrólogo tem um insight do problema do cliente através do uso das técnicas astrológicas de interpretação que deveriam conduzir a conselhos de ordem geral e de base astrológica ou, talvez melhor, a intervenções de ordem pedagógica. É uma hipótese fundamental da Astrologia a correspondência entre os planetas e certas funções da psique humana. Podemos, portanto, a partir da interpretação do significado das posições planetárias, indicar determinados traços de caráter do indivíduo e compreender tanto seu comportamento como algumas de suas motivações.

Surgem aqui dois problemas.

O primeiro é: como reconhecer qual a porção, dentro conjunto complexo daquilo que denominamos personalidade humana, que corresponde à área de competência do mapa astrológico?

O segundo é: a falta de uma definição clara dos conceitos astrológicos de signo, planeta e casa, que tem como conseqüência confundir os significados atribuídos aos três.

Os manuais que descrevem os aspectos, as posições dos planetas nos signos, ou a dos planetas nas casas fornecem descrições muito parecidas para Lua na casa 2 e Lua em Touro, por exemplo; Marte em conjunção com Mercúrio com Marte em Gêmeos. Confunde-se reiteradamente mercuriano com geminiano, ou melhor, o planeta Mercúrio com o signo de Gêmeos. Ou Sol na casa 5 com o signo de Leão na cúspide da 5. Basta ler Howard Sasportas em As Doze Casas e atentar para o título do Cap. XX : Mercúrio, Gêmeos e Virgem através das Casas para perceber que esse título mesmo é uma confissão de quem não sabe diferenciar planeta de signo. A diferença entre aquilo que indica um signo, um planeta, uma casa, um aspecto é, ainda, matéria confusa no saber astrológico.

Mas surgem ainda dificuldades mais graves quando se consulta um manual de astrologia. As descrições das posições planetárias são quase sempre tão contraditórias como esta transcrita em seguida, onde os grifos são meus:

"Talvez Saturno na casa 7 busque um companheiro seguro, e às vezes o menos arriscado é aquele que não gera uma paixão enorme. Ou, como política de auto-proteção, é provável que escolham deliberadamente parceiros que considerem inadequados e incompletos em certos aspectos."

O exame desse texto de Howard Sasportas em As doze Casas - Saturno na sétima provoca a pergunta: - Mas, afinal, Saturno na casa 7 indica um companheiro estável e seguro ou inadequado e incompleto? Todas descrições de posições astrológicas fabricadas por todos os astrólogos seguem exatamente esse mesmo padrão do pode ser, pode não ser. A constatação desse fato nos coloca frente à tarefa de descobrir qual a interpretação, constante e comum, que se esconde por trás dessas descrições antagônicas.

Reconheçamos, também, que o mapa astrológico com seus doze signos; as doze casas; o Sol; a Lua; os cinco planetas tradicionais mais Urano, Netuno e Plutão; os diversos tipos de aspectos (26 segundo minha última contagem); nodos lunares; asteróides; Lilith; Kiron; as trezentas e tantas partes árabes; vertex; trans-plutonianos; pontos médios; roda da fortuna; graus simbólicos et caterva, é um desafio monstruoso às capacidades de análise, combinação e síntese de qualquer um.

Além disso, com tantas variáveis, o controle dos acertos na interpretação e a identificação de suas causas se torna extremamente problemático, pois pode-se sempre atribuir uma mesma interpretação a constelações astrológicas similares escolhidas ao gosto do freguês. Por exemplo: o indivíduo convencional, diferente, imprevisível, intenso emocionalmente, passional e apaixonado pode ser que deva esses traços, a um Sol em Aquário com Lua na casa 1 em Escorpião, ou pode ser que tenha um Ascendente em Aquário e Plutão em quadratura (ou oposição) à Lua, ou pode ser que Urano esteja cravado no ascendente junto com a Lua na casa 8 em Câncer, ou pode ser que não seja nada disto, mas um Sol de casa 11 oposto a Urano que faz parte de um T-square com Lua e Plutão, ou pode ser que ...

Outra dificuldade é o conhecimento, o domínio e o uso correto das regras do simbolismo. Todo símbolo verdadeiro tem, por definição, múltiplos significados coeridos todos pela mesma razão analogante. É essa variedade mesma de significados que faz da interpretação astrológica uma arte e de onde surge toda a riqueza de possibilidades interpretativas. Mas é comum confundir analogias verdadeiras com meras similitudes e, ainda, interligar planos de interpretação incompatíveis entre si, o que produz peças dignas do samba do astrólogo doido. Como por exemplo: Júpiter presente na casa 12 em Capricórnio e regente da casa 8. O delírio simbólico segue mais ou menos os seguintes passos: Júpiter = fígado; casa 12 = doença; Capricórnio = pedra; casa 8 = morte, é claro; logo, doença mortal devido a uma pedrada no fígado. O exemplo é caricato e exagerado mas, não está muito longe do que se pode encontrar em certos textos astrológicos.


Aconselhamento psicoterápico:
cuidado clínico


O aconselhamento psicoterápico permite ao cliente ter um insight do seu problema. Não é área astrológica e exige, portanto, que o astrólogo tenha a capacidade e a formação para aconselhar psicologicamente. Ou, no mínimo, conhecer e compreender os sistemas de psicoterapia existentes para fazer a indicação de um profissional daquela área adequado ao caso.

Lá, no íntimo de cada um, onde não podemos mentir para nós mesmos, somos obrigados a reconhecer que a eficiência do aconselhamento astrológico, quando ela existe, se deve não só ao saber astrológico estrito senso (aquele que consiste em saber interpretar ou ler a carta natal), mas também se deve, e muito, à boa vontade do cliente ávido por assegurar sua existência na escala cósmica, e disposto por isso mesmo a colaborar. O astrólogo está aqui na posição de dublê de psicólogo, muito mais incômoda e desafiadora do que a de duplo de astrônomo. Alguns astrólogos ao perceberem o enorme desafio que é o aconselhamento vão buscar apoio, também, no conhecimento filosófico que podem obter.

Assim, esta parte da consulta não é de modo algum astrológica e depende da formação, experiência e maturidade do astrólogo. Por isso temos a obrigação de colocarmo-nos, intelectual e criticamente, um pouco acima das crenças, ideologias e opiniões aceitas no nosso meio para diminuirmos a ação do condicionamento do mundo exterior sobre nós. É muito difícil escapar à influência envolvente do meio e das ideologias que o permeiam. O máximo que podemos fazer é nos manter sempre vigilantes e críticos, tentando nos livrar dos exageros.

Uma dessas idéias da moda, aceita e incorporada sem exame pelos astrólogos é a do autoconhecimento. É fundamental, para um bom atendimento, estar consciente de que, através da carta natal, não podemos responder à pergunta "quem sou eu", feita freqüentemente pelos nossos clientes. E é mesmo uma contradição de termos alguém querer vender (ou dar) autoconhecimento a outro. Só eu posso saber quem sou eu. Num mundo onde o verdadeiro autoconhecimento foi degradado, e tornou-se objeto de consumo e uma forma pedante de alienação, estimulada pelos livretos pseudo-esotéricos de auto-ajuda e pela divulgação de um orientalismo de quinta mão, é preciso que o astrólogo esteja ainda mais que atento para não se tornar um porta-voz inconsciente de tais coisas. É bom saber que autoconhecimento não é uma curiosidade que se possa saciar na consulta astrológica, ou através das psicoterapias inventadas pelo consumo, ou pela leitura do livrinho de conselhos piedosos compilados pelo mago no seu último best seller, ou mediante à sujeição cega a um dos gurus de plantão.

O autoconhecimento, tal como é compreendido atualmente pelos grupos ditos esotéricos, é anti-humano, já que pressupõe a anulação da vontade do indivíduo, que é exatamente a faculdade que o marca com sua humanidade, e que se expressa de modo pleno no ato livre. A vida é um a-fazer, ensina o grande filósofo espanhol, Ortega y Gasset. Nós é que a fazemos e criamos, e nenhum outro a vive por nós. A minha vida e a de cada um é o conjunto encadeado das conseqüências das decisões livres que tomamos a cada instante e pelas quais somos os únicos responsáveis. A prática livre do viver, atento e motivado por uma verdadeira compaixão pelo sofrimento dos seres, que acarreta obrigatoriamente a responsabilidade pessoal pelas conseqüências de cada ação praticada em relação aos outros, e em relação ao ambiente é que possibilita o autoconhecimento. E não essa introspecção preguiçosa, alienante e autocontemplativa, que se consome nos shopping centers esotéricos ou na pseudo-religião da moda. A pergunta não é, portanto, quem somos, mas quem queremos ser. Resposta, que só pode ser obtida pelo exercício inteligente da liberdade e da vontade, que não devem ser anuladas ou diminuídas, por nenhum meio, na consulta astrológica.


O elemento místico e oracular: adivinhação

À luz dos ciclos de desenvolvimento pessoais, sem perder de vista os traços de caráter mais marcantes do cliente e com a aplicação de técnicas seguras de previsão astrológica, podemos identificar as épocas em que sua percepção estará alterada e deduzir com a sua ajuda a qualidade de momentos determinantes de sua vida, quando eles acontecerão e qual a sua duração. Podemos, ainda, discutir com o cliente as linhas gerais de uma preparação psicológica ou pedagógica que lhe possibilite lidar eficientemente com essas épocas e tirar o melhor proveito delas.

O cliente conscientemente sabe, ou inconscientemente deseja e espera, que a consulta astrológica seja oracular. Como todo o oráculo é por natureza dúbio e carrega visceralmente falta de credibilidade, o cliente já aceita, a priori, que as previsões oraculares podem dar errado e portanto não as leva muito a sério e só raramente cobra por algum erro.

Esse aspecto da consulta astrológica associado ao caráter interdisciplinar da Astrologia, acarreta que o astrólogo se ache obrigado ou capaz, (o que é mais grave), a dar consultoria sobre tudo sem a cobrança do erro. Também pela mesma razão, alguns astrólogos têm a pretensão, que considero abusiva, de revelar aos seus clientes o sentido último e cósmico de suas vidas, tendo como fundamento uma interpretação finalística ou cármica de seus horóscopos.

Acredito que isso tudo se deva a uma degeneração de um elemento legítimo da astrologia tradicional e antiga, chamado inspiração espiritual, atualmente confundido com as mais grosseiras manifestações do psiquismo inferior, mas existente na época em que esta ciência podia ser chamada legitimamente uma ciência sagrada, pois se inseria de modo coerente e completo dentro da doutrina e das práticas espirituais de uma tradição viva.


Cid de Oliveira é astrólogo.






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